A artesã
Aqui, nos
confins de Minas Gerais, divisa com a Bahia, dizem, ela vivia uma vida simples,
fabricando as melhores artes em barro. Era
procurada e admirada por todas as paróquias, pois seus santos, quando nos altares
enchiam de fiéis. Seus santos eram milagreiros de mão cheia.
-Vejam! Como
são perfeitos e bem pintados!
Todos
aproximavam.
Diziam a
boca pequena que Santo Antonio tinha se cansado de casar megeras e santo expedito de defender causas impossíveis.
Chamava-se
Nhá Zefa, desde o tempo que fugira da senzala e foi resgatada e cuidada por uma
tribo indígena onde aprendera com uma velha índia a arte. A tribo sumiu do mapa
com o avanço dos brancos, ela ficou com uma pequena faixa de terra as margens
do rio São Francisco, bem nessa curva, perto da grande corredeira.
Sua casa uma
choupana a maneira dos índios. Dormia numa rede onde quem passava ao largo via uma
pretinha pequena, troncuda, olhos negros, braços fortes de tanto bater o barro.
Um belo dia, cansada, deve ter sido isso creio
eu, o Velho Chico minguando, o barro cada vez mais longe, o barro já não era o mesmo, contaminado que estava com mercúrio e outras tranqueiras,dissera ao povo que
ia parar, mas como última obra fabricaria um homem do tamanho dela para ser seu
companheiro.
Também estava impaciente, pois
suas obras começaram a rachar, mesmo tomando os cuidados de sempre, de
sovar bem o barro, como os padeiros sovam a massa, tirava
todas as bolhas, não parava até ficar
homogênea, mas mesmo assim na queima tinha defeitos.
Ela era perfeccionista.
Tem artes até no Louvre.
Ela falava
que a água do Velho Chico estava cheio de mercúrio, estavam matando os peixes,
enfim o rio estava morrendo.
É bom dizer
que Nhá Zefa, não teve filhos. Era por assim dizer uma pessoa solitária. Não
no sentido restrito da palavra. Isso não. Afinal sempre estava rodeado pelos
santos. Também tinha um cachorro velho que vivia deitado em seu alpendre coçando as
pulgas e suas mazelas.
O que eu
sei, e é bem pouco, foi que naquela manhã, ao invés de fabricar um santo
começou a fabricar um homem do seu tamanho para preencher seus dias vazios.
E
assim fez. Dizem que em uma semana apenas, o esboço estava pronto, faltando alguns detalhes somente, na sala secando para ir a queima. Ela tomou todos os cuidados para
não dá bolhas nem rachar. Acordou aquela noite inúmeras vezes para umedecer o
barro com um trapo de pano. Assim ela dizia, vai ficar perfeito. Será minha
obra prima.
Todos temos o desejo da obra maior.
Quando ela
acordou assustou-se sobremaneira. O homem tinha sumido.
Havia pegadas pelo alpendre. Nem colocou a
água no fogo para fazer o café, saiu sem
jogar água no rosto e o seguiu. Foi encontrá-lo parada, a beira do rio olhando as corredeiras.
Aproximou-se.
-O que você
esta fazendo aí? Ela sorriu ao lembrar que não o tinha batizado ainda.
-Apreciando o rio.
-O que
achou?
-Belo. Você que criou?
Ela deu uma gargalhada.
-Quem dera!
Ele ficou pensativo.
-Vamos tomar
café? Ela disse:
-Pode ir.
Vou olhar mais um pouco.
Ela estava
satisfeita. A obra estava terminada. Até falava! Veja só ela disse para ela mesma. Fez café, cuscuz e pôs a mesa.
Gritou para fora:
-Está
pronto! (Diacho como vou chamá-lo, pensou ela).
Ele veio
devagar, como fazem as crianças nos primeiros passos. Sentou-se. Comeu
sem medida. Nhá Zefa debruçou-se na mesa para
olhá-lo. Carinho de mãe.
- o rio...
-O que tem o rio?
-Ele vai dá
até onde?
- Ixe! Dizem que até no
mar.
-E o mar?
-Longe! Em
outros mares...outras terras, outros mundos...
-O mundo é
grande?
-Dizem que
enorme.
No outro dia
Nhá Zefa encontrou o inominado construindo o que parecia um barco.
-Para que o
barco?
-Vou descer
o rio.
-A troco de
que?
-Conhecer o
mar.
-É
impossível meu filho, ela disse com as mãos postas. Se caíres na água seria um
desastre...Há muito perigo...
-Eu vou
arriscar...
-Mas, nem
nome você tem!
-Quando eu
voltar você me batiza.
E assim foi.
Uma manhã depois do pequeno barco construído juntou um pouco de víveres e levantou
âncora.
Nhá Zefa ficou muito triste quando ele se foi.
Mas os filhos são para o mundo, pensou.
A velha choupana ficou sóbria e vazia.
Aqui a
história perdeu todo meu alcance, pois o que sei, foi escrito por outros. Só
sei que ele andou muitas luas, segundo nhá Zefa. Pra vocês vêem, dizem que foi avistado no continente africano
onde atravessou a pé todo o deserto do Saara. Uma caminhada terrível por entre
a áfrica do sul e Marrocos. Foi pego e vendido como escravo no novo mundo.
Mas antes
disso, caminhou desde Guiné á Somália onde por um triz não morrera de fome.
Não cito
aqui os fatos ordenados cronologicamente por ser a narrativa oral e vem assim, aos borbotões.
Daí partiu
para o Egito, conheceu as pirâmides e os faraós. Na Jordânia e em Israel
descansou por um tempo a sombra das oliveiras. Ouviu falar de milagres. Um
homem prometia salvar as almas. Correu para alcançá-lo. Sentiu-se confuso quando
o viu de longe. Parecia humilde. Entre o homem e o ladrão escolheram O homem
para ser crucificado.
Aquela noite
ele sentiu-se tão só e desamparado e chorou. Ganhou dois sulcos no rosto por onde rolaram as lágrimas. Riu de si mesmo. Esquecera-se que era de barro.
Correu toda Jerusalém.
O silêncio doía os ossos.
Atravessou a Espanha. Acompanhou um tempo um
sonhador que caçava dragão. Separaram-se
numa encruzilhada. Cada um seguiu seu caminho.
Daí entrou
na frança. Atravessou toda a Europa num pulo. Nesse tempo a peste negra
assolava toda a região, fugiu para a Rússia. Tomou o maior porre de vodka e jurando
que estava vivo atravessou a Mongólia e a China. Dali chegou até o Japão.
Passou o maior susto quando viu com seus olhos inertes as bombas caindo.
Depois voltou
a china porque soube do Tibete. Andou pelas ruas tortuosas. Viveu por longos
anos num campo de concentração. De sorte fugiu pela Polônia.
Um belo dia,
quando ninguém o esperava, apontou na
curva do rio, o que fez Nhá Zefa, em sua espera diária,soltar um suspiro de
satisfação pois, ela estava tão velha, mais tão velha que diziam que tinha
feito um trato com a morte, para só levá-la quando o inominado voltasse. E foi
o feito.
Ele chegou para ela ajoelhou-se aos seus pés:
-Eu agradeço
por dar-me a vida minha boa senhora, mas agora peço encarecidamente uma coisa...
Depois que
ela o observou longamente como faz as mães, viu os sulcos no seu rosto, os olhos cansados, as marcas da escravidão, das guerras, assentiu com a cabeça:
-Peça meu filho!
-Eu andei como
um louco por todo o mundo a procura... E jamais encontrei...
-O que é,
pode dizer sem medo meu filho...
-Minha alma
mãe a senhora esqueceu de me dá...
Nhá Zefa segurou
em seus ombros, e disse delicadamente:
-Ah! meu filho, eu sou a melhor
artesã dessas paragens, juro, isso que você está me pedindo, não
está ao meu alcance... Toda mãe gostaria...
E,
levantando-se abraçou-lhe carinhosamente.
Então ao ouvir essa sentença, ele se
levantou e saiu. Olhou o mundo lá fora. A barra do rio estava clara. O sol
tinha deitado há pouco. Como um autômato andou para a beira do rio.
-O que você
vai fazer meu filho?
Em silêncio ele entrou no leito do rio e a
medida que afundava lascas de barro soltavam-se de seu corpo derretendo,
derretendo... até virar pó no fundo do rio.
-Dizem que foi bem
aqui ó, Moisés apontou com o dedo.
Os estudantes
escutavam tudo em silêncio. Moisés era guia turístico.
-Os viajantes que passam por aqui, muitos cortam
voltas com medo.
Dizem que escutam lamento.
-Ouçam! Todos escutamos:
"Minha alma!
Eu quero a minha alma!".
O eco vem da curva do rio.
Bom, Nhá Zefa
viveu aqui, cento e trinta anos.
Dizem que em
lua cheia ela aparece, nas margens do rio ali ó, juntando barro. Dizem que agora ela sova bem o barro, longo tempo, toda lua cheia,
para dessa vez o barro não passar do ponto, e não fraturar. E assim talvez um dia
criar um novo homem... corpo e alma.
13 de
setembro de 2018.