segunda-feira, 24 de julho de 2017

Brasil-O quinto dos infernos



                  Brasil-O quinto dos infernos







           O título é uma expressão portuguesa. Depois eu explico.
          

            Primeiro vamos ao que interessa.  E o que interessa aqui nesta crônica é tentar compreender, por que o ser humano mente tanto, mesmo sabendo que  mentir é contra os padrões morais de muitas pessoas e é tido como um “pecado” em muitas religiões.
           As tradições éticas e filósofos estão divididos quanto a se uma mentira é razoável em alguma situação  – Platão disse sim, enquanto Aristóteles, Santo Agostinho e Kant disseram não.
         Assim pergunto aos meus botões.
          A mentira é inerente ao ser humano? 
         Segundo biólogos e antropólogos, o chimpanzé é o animal que mais se assemelha a nós, assim sendo nosso primo mais próximo, afinal anda quase ereto. Comprovado que o mesmo não é capaz de, digamos, oferecer um cacho de banana a uma macaca para levá-la ao matel ou oferecer propina para segurar um lugar melhor numa árvore. A não ser em raros casos na ficção como no filme King Kong, onde ouve uma paixão avassaladora que o levou a morte. Ou no planeta dos macacos onde impingiram aos primos nossos  defeitos. Mas não. Eles não mentem. O homem é o único mamífero que sorri e mente.
        A relação da mentira com o homem é diretamente proporcional a técnica de oratória. Quanto mais aprendem a falar maiores as chances de mentir. Quanto mais o homem evolui sua capacidade de negociar, vender,  chega mais rápido ao ápice.
       O Que é uma mentira?
       Segundo a enciclopédia livre Wikipédia, mentira é o nome dado às afirmações ou negações falsas ditas por alguém que sabe (ou suspeita) de tal falsidade, e na maioria das vezes espera que seus ouvintes acreditem nos dizeres. Dizeres falsos quando não se sabe de tal falsidade e/ou se acredita que sejam verdade, não são considerados mentira, mas sim erros.
     Ávido de curiosidade e sem tempo de uma profunda pesquisa nos anais das enciclopédias busquei no Google.  
    Digitei: Quem mente mais, o homem ou a mulher?
Aproximadamente 1.800.000 resultados (0,54 segundos) . Que velocidade hem! E acreditem! Fiquei boquiaberto!
Um site tentou dissimular...  Mas depois dizia:
 Segundo uma pesquisa inglesa com 1,2 mil pessoas, encomendada por uma marca de chás, as mulheres mentem mais do que os homens. E é por uma boa razão: empatia. EMPATIA viu! Não fiquem raivosas.
      Digitei: Qual profissão mente mais?
Aproximadamente 699.000 resultados (0,50 segundos) .
       Indicava a melhor “resposta.” A profissão que mente mais é indiscutivelmente todas que começam com a consoante P em ordem crescente: político, padre, pastor e prostituta. Outro internauta embaixo brincou: E Advogados e juízes?Ficam fora?  Não comento respostas subjetivas, sem bases científicas.
      Mais curioso digitei: Porque as pessoas mentem?
Aproximadamente 388.000 resultados (2,17 segundos).
      Site de psicologia. Explicava: O mentiroso acredita em sua própria mentira. O que geralmente se ouve no consultório: “eu não minto nunca”, ou “me senti muito triste por perceber que esta pessoa que eu confiava tanto mentiu”. Isso é muito mais comum do que imaginamos. As pessoas não confessam que mentem. Tente olhar no espelho e confessar.
     Uma grande maioria mente para agradar. Isso mesmo. As pessoas mais agradáveis e cuidadosas com os outros mentem mais.
      Agora mesmo, enquanto você lê esse texto, milhões de pessoas estão mentindo. Imagine o mentirômetro.
       A coisa estava ficando engraçada. Digitei: Quais os maiores mentirosos do mundo?
       Apareceu um punhado.  O primeiro da lista vejam só, vendeu  duas vezes, a torre Eiffel. Sim. Acreditem! O nome do espertalhão é o francês, Víctor Lustig.
       Depois vem Frank Abagnale,  inspirou o filme ‘Prenda-me se for capaz’ começou  a saga, passando cheque sem fundos.
       Em seguida Christophe Rocancourt, o Rockefeller francês. Passava-se por outras pessoas.
       Na lista tem um brasileiro sim senhor(a).
       Marcelo Nascimento da Rocha, o maior golpista brasileiro. Passou a perna em muitos artistas.
       Aí bateu uma preocupação.
      Mas, e como defender-se desses mentirosos?
      Lembrei-me quando em criança minha mãe, que Deus a tenha em bom lugar, quando desconfiava de algo, segurava-me pelos braços, aproximava-se olhando nos meus olhos, e falava a frase capital: “ Conta a verdade meu filho!” “Era batata”. Dizia ela.
       E de tanto ela dizer “Batata” o louro “Chico” vive repetindo a mesma coisa.
        Esse louro é o melhor detector de mentiras que eu conheço.
       Nos dias atuais tentou-se inventar alguma geringonça (Um detector de mentiras) que fizesse o que as mães sabem muito bem. Por sinal, as mães, dariam grande ajuda na operação “lava a jato”. Mas, infelizmente as mães não são eternas.
      Então para detectar a mentira, passaram a usar o Polígrafo, máquina que mede o estresse fisiológico do entrevistado. “Tipo o coração acelerado, sudorese, mãos frias”. Afirma-se que picos do estresse indicam comportamento mentiroso. A precisão desse método é amplamente contestada, e em vários casos bem-conhecidos provou-se que ele foi ludibriado.  Os homens aprenderam a esconder isso.
      Testaram os soros da verdade durante depoimentos, embora nenhum seja considerado muito confiável. A CIA tentou descobrir um "soro da verdade" no projeto MK-ULTRA, mas foi na maior parte um fiasco.
      O álcool, por exemplo, é um ótimo soro. Tenho amigos que quando  bêbados, falam pelos cotovelos. Quem já não ouviu essas frases? O “bêbado não tem papas na língua”. Ou “cu de bêbado não tem dono”. Infelizmente  os grandes mentirosos, a maioria permanecem sóbrios.
       Depois passaram a estudar as micros expressões faciais que se  mostraram como um método confiável, de acordo com o Diógenes Project de Paul Ekman e do Psy7Faces de Armindo Freitas-Magalhães e logicamente as mães. Sim. Fique frio. Todas as mães sabem quando seus filhos mentem. A não ser aqueles, “filhos das putas”. Parecem que engessam os músculos do rosto, as chamadas caras- de- paus.
      Em outras palavras, um lampejo minúsculo da expressão facial de "perturbação", embora difícil de ser vista para o olho destreinado, pode indicar quando a pessoa está mentindo.
      Eu particularmente quando mentia os principais sintomas era, suor frio, mão gelada e dor de barriga.
      Sabendo dessas expressões, que a mente manda ao físico, nuances  quase imperceptíveis no rosto, gestos, palpitações, hoje posso dizer com certeza que ninguém me engana. Juro!  Digo isso, sem medo, sem cruzar os dedos atrás, fazendo figa.  Era o que fazíamos quando jurávamos, lembram?
      Uma pequena explicação de como conhecer um mentiroso.  Converse sempre olhando nos olhos. Nunca ouviu falar que os olhos são o espelho da alma?Também assista a série  Lie To Me(Engana-me se puder) no netflix. Eu vi   zilhões de vezes, só  para ficar craque no assunto.
         Agora uma pequena consideração.  Falar só a verdade é um saco. Já pensou você não poder mais falar para os amigos, que comeu aquela gostosa do prédio, ou que nunca falhou no sexo, ou que seu pênis tem vinte e cinco centímetros em repouso ou que sempre na cama tira duas sem tirar de dentro, essas coisas machistas que adoramos falar.
      Ou as mulheres ao se encontrarem dizer realmente o que pensam. Pense num desastre. Duas amigas se encontrando depois de anos. “Você está igual uma piriguete!”, “Nossa como você engordou! Menina do céu engoliste uma baleia!”. “Nossa teu cabelo esta parecendo uma vassoura”. Era briga na certa.
         E cá entre nós,ter que ficar o tempo todo desmentindo os outros, ninguém quer ver você por perto.  Uma pessoa assim acaba sendo descartado(a) dos encontros, dos churrascos, das pelada, das saunas até do Swing se por acaso for adepto.  
        O cara que só fala a verdade é considerado um chato, ranzinza e comete o sincericídio.  Todo mundo foge daquelas pessoas que se dizem franca, não é mesmo? A pessoa franca será condenada a solitária, afinal quando alguém se olha no espelho não quer se ver na real, mas o que seus olhos e ego anseia.
        Veja as redes sociais. É um grande exemplo. O brilho que reluz ali não é ouro. Imagine na sua foto predileta, um amigo franco destilar toda a franqueza e escrever um comentário:
      -Nossa! Esse teu sorriso é mais falso do que nota de três reais!
Ou:
      -Esse carro é lindo! Já pagaste as sessenta parcelas do financiamento?
Mesmo sendo a pura verdade, você o deletaria na hora. Ou no mínimo, o bloqueava.
E foto de família. É lógico que quando amamos não vemos pelo lado da estética, pois como dizem , o amor é cego.
        Mas sempre tem aquelas” tiazonas” as que dizem batendo no peito, “eu sou franca sim” sem olharem-se no espelho, - Nossa! Aquela teu namorado(a) é um horror!
        Imagine alguém dizendo de sua melhor foto: Não! Aquilo não é felicidade, aquela sua foto. Felicidade não se mede com sorriso. O sorriso, isto sim, dissimula o sofrimento.
Apenas nesses casos sou da mesma opinião do velho Platão.  Sou a favor sim de uma mentirinha leve.
Agora quem não perdoa mesmo é o louro Chico. Ele ver TV comigo, no seu poleiro, todos os dias.
     Estou na iminência de ligar para a polícia federal para oferecer o melhor detector de mentiras da atualidade. Ele só precisa ver os vídeos das pessoas falando.
Chega de acordo de leniência ou delações premiadas.  E ele é barato e um barato. Só precisa dá para ele de vez em quando um punhado de milho e algumas frutas silvestres. Ajudaria bastante a “lava a jato”.
       Veja os vídeos que confrontei com ele. Todos foram upados da internet, e cá para nós, o  material é farto. É bastante olhar a televisão umas duas horas, principalmente nesse novo país sul americano, chamado de Pindorama, ilha de santa Cruz, terra de santa Cruz e finalmente Brasil.
       Quando começa o jornal ele levanta as penas do cocuruto, e esbugalha os olhinhos.  Se falam  mentira, ele grita  “Batata!” Ainda bem que ele não fala pelos cotovelos, pois poderiam surgir alguns processos de injúrias e difamação e cá para nós ele é um “duro”. Alem do mais, tornaria nossa justiça ainda mais morosa.
        Enquanto eu procurava os vídeos no celular  ele tomava um banho, abrindo as asinhas.
        Porque meu papagaio repete “é batata”?
        A culpa é da minha mãe.  Na adolescência somos cheios de segredos. Nessa época ela dizia as amigas: “Quando quero pegá-lo na mentira, olho dentro da pupila dele. É batata!
       Aí voltei ao Google. Digitei: É batata! Aproximadamente 16.300.000 resultados (0,48 segundos) .
        O termo batata,se originou durante a era feudal, onde era muito comum a troca de mercadorias. Um produtor de trigo trocava seu produto por carne de um caçador, este por sua vez trocava o que excedia do trigo por algo de sua necessidade, muitas vezes sua caça, não interessava a ninguém, sendo obrigado a trocá-la por algo que não necessitasse.
 
         A batata era a mercadoria mais cobiçada, pois além de suas atribuições nutritivas, havia várias formas de ser consumida e de fácil aceitação.
Desta forma quando alguém tinha batata para troca, ao oferecer sempre tinha vantagem na negociação. Daí  o termo É BATATA, a facilidade de realizar a troca por um coelho, trigo, azeite, tecido e etc.  Era certo que aconteceria.
É Batata = é certo que vai acontecer.


        Nos dias de hoje o "É batata", facilmente seria substituído por "É propina!".
Mas deixa pra lá.
         
       Aí vão os vídeos:

       Quando o primeiro rodou, chico, segurava um grão com a pata direita, e levava ao bico, e ficou roendo com estalidos. O milho caiu.  Paciente, ele desceu e fez tudo novamente.
 As expressões dos personagens estão anexas:
Vídeo 1-  Fala: “Muitos votaram porque eu era o candidato a vice”. O orador encontra-se em pé e quando as consoantes vibram, parece vir da garganta de um cadáver, comprime a mão esquerda esquelética  sobre a direita varias vezes, os olhos giram da direita para a esquerda lentamente, e o lábio superior, morde o inferior. Repete sempre o que diz com o dedo em riste.
Chico logo gritou:
        - Batata! Batata!
Vídeo 2- Fala: “O Brasil agora entrou nos trilhos” Da mesma forma da anterior, acrescentando um pequeno espasmo de cansaço, uns olhos lacrimosos e o dedo em riste. Repete sempre as falas.
        -Batata! –Batata!
Vídeo 3- Fala:  “Esses dois milhões é um empréstimo para pagar advogados”. Esse personagem, fala sorrindo, apóia as duas mãos na bancada, as bochechas ficam salientes, as narinas inflam buscando oxigênio.
        -Batata!  Batata!
Vídeo 4- Fala: “Não foi golpe!” ,  “Caixa dois é diferente de propina” ,  “Essa lei foi tão mal feita que parecia ter sido feita por bêbados”,  “E depois os bêbados protestaram dizendo que não fazem leis tão ruins”, “Vossa Excelência hoje é relator e está brilhando na televisão do Brasil todo, nesse caso me deve”.   Esse personagem  quando fala sempre usa alusão, O lábio superior permanece como um sinal de parênteses deitado e faz pausa e olha de um lado para o outro,  meneia a cabeça como um cavalo que tenta se soltar do cabresto. De vez em quando levanta a nádega para solta pum”. 
           -Batata!  Batata!
Vídeo 5-Fala: “Eu voto pelo  impeachment pela minha família, pelo meus filhos!”  Esses personagens subiram na tribuna, a maioria levavam uma bandeira, as sobrancelhas, quando no momento da fala, arqueavam para cima, tal pequenos urubus depois de saciados da carniça.
          -Batata!
Vídeo 6-Fala: “O ex-presidente, não está sendo julgado por sua opinião política e também não se encontra em avaliação as políticas por ele adotadas durante o período de seu Governo”. Esse personagem, a voz nasalizada, os pequenos olhos pretos bailam como gemas na clara, e os lábios ficam finos e em forma de gaivota. Olha como em câmera lenta ou slow motion.

          -Batata!
Vídeo 7-Fala: “O Bolsa Família é uma estratégia do PT para vandalizar a família”. Personagens de rua, eles gritavam com bandeirinhas, os olhos faiscavam, a testa sempre enrugada, muita sudorese.
        -Batata!
Vídeo 8 –Fala: “ Nesse dia de glória para o povo tem um homem que entrará para a história. Parabéns presidente Eduardo Cunha. Perderam em 1964 e agora em 2016. Pela família e inocência das crianças que o PT nunca respeitou, contra o comunismo, o Foro de São Paulo, e em memória do Coronel Brilhante Ustra, o meu voto é sim!”. Esse personagem morde o lábio inferior, as sobrancelhas ficam arqueadas, tenta um sorriso que mais parece uma máscara. Propenso a loucura ou demência. Quando fala cospe gotículas raivosas.
        .-Batata!
Vídeo 9 – Fala: “ O valor médio dos benefícios da previdência social cresceu e tem que ser mantido. Para isso é preciso fazer a reforma, para que aqueles que se locupletam da previdência não se locupletem mais, não se aposentem com menos de cinqüenta anos, não seja vagabundos, num país de pobres e miseráveis.” Esse personagem fala fazendo um barulho estranho nas cordas vocais, parecendo cantor de bordel da década de 30, repete hã hã hã,, e nervoso a papada tapa o nó da gravata. Parece que vive com azia e má digestão. Peida bastante.
        -Batata!   
Vídeo 10- Fala: “Eu tenho conhecimento integral das 190 páginas da peça  para dizer que é uma peça teatral. Ali não tem fatos, só atos teatral”, "Não tem nenhum motivo para sermos presos porque não cometemos nenhum delito" O personagem quando fala parece que está sempre comendo biscoito polvilho. Tem um sorriso sarcástico.  A sobrancelha esquerda sobe e desce vigorosamente. Sorri feito uma hiena.
          -Batata!
Explicando o  título:
Na época das grandes navegações, quando em Portugal vinha chegando uma embarcação proveniente do Brasil, o povo dizia: “Lá vem a nau dos quintos do inferno”.
“Inferno” era como os portugueses chamavam o Brasil. Os “quintos” se referiam ao imposto de 20% (um quinto) do ouro aqui extraído, cujo produto arrecadado (ouro mesmo) era levado para Portugal pelo mar.
Então, que todos os mentirosos, vão ao quinto do inferno!
        




quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

A criação

                                          A Criação







Barbearia do centro. Antro perfeito de homens de toda espécie de barbas e idéias.
Um homem com um jornal na mão chama a atenção dos presentes para um fato, escrito ao pé da página de um jornal de terceira categoria. Quando todos estão atentos ele lê a manchete:
“Marido leva mulher à delegacia, desconfiado de traição, e o elemento de prova é um velho papagaio”.

Todos caem as gargalhadas. Apenas um manteve-se quieto e com a navalha na cara do freguês. Depois falou pausadamente:

          -Esse caso é meu!
          -Não acredito, galhofaram todos, pois sabiam que o barbeiro Cici era exímio contador de histórias.
          -Mas conte! Estamos todos ao seu dispor. Ainda mais eu com essa navalha na cara, disse o homem sentado em sua cadeira.
Cici espalhou a espuma, amolou a navalha, e segurando o nariz do freguês foi raspando cuidadosamente, respeitando as verrugas e outros acidentes geográficos que havia naquela cara.

Todo final de ano, por uma semana, Maria Genoveva visitava a mãe.  Essas visitas, nada mais saudáveis para o casal, pois cada um ia buscar energia perdida, com os seus. Eram encontros memoráveis que ambos, eu e ela voltávamos com os olhos brilhando, e que nos dava força para a rotina diária. Esse ano como fiquei órfão resolvi acompanhá-la.  Pegamos a estrada.

Devo apresentar-me:  Meu nome é  Moacir, mais conhecido por Cici.  Fui corretor de imóveis há quarenta anos, sem dúvidas, aprendi a maquiar situações, para que tudo pegue um frescor, a fim de que seduza compradores e inquilinos. Faz parte.  Depois de aposentado montei essa barbearia. Continuo melhorando a cara de muitos brutamontes. Toda profissão tem disso. Os escritores são mestres. Pois bem.

Nosso relacionamento era estável. Uma discussão a cada nove meses, nada imperdoável. Há sempre as implicâncias, por exemplo. Quando íamos tirar fotos ela não pedia para dizer o famoso xis e sim para que eu murchasse a barriga. Não fazia o que ela pedia e mais, tornava-a saliente para importuná-la. Veja só, essa barriga que gastei bastante para tê-la.
Em fim fui visitar a sogra pela primeira vez.
  A casa era um velho bangalô no meio de uma rua comprida. A principal da cidade. Por ali escoava tudo para fora e em direção ao centro.
Eu também tinha criado as minhas quizilas: Dizia para ela, o short está curto, o decote avantajado, a voz está alta e estridente.
Acompanhei-a  subir com as malas, pela longa escadaria. Observo que mesmo com quarenta anos ela estava em forma. Um traseiro de respeito.
Quando atingimos o topo, suspirei, belo sobrado e enquanto largava a mala no assoalho, cheguei a pensar, “O que a sogra pensará a meu respeito?”.  
“Ora! Deve pensar o melhor possível!”.  Afinal eu mantenho a filha dela muito bem, bela, pele igual bunda de nenê e tão jovial. “Jovial até demais, pelo jeito que subiu a longa escadaria de um fôlego só”.
  Chego bufando no último degrau.
A sogra veio nos receber à porta, com um abraço acalorado e vi com esses olhos azuis que a terra há de comer, olhar-me de cima a baixo. Depois de desfazer-se dos abraços, sorriu de viés e pareceu falar algo do tipo “ Eis o pulha”, depois foi batendo o chinelinho no piso verde  de mármore,  abriu a janela para a entrada da brisa e ficou uns segundos olhando para fora.
  Talvez deduzindo o motivo de minha presença, já que Genoveva não teve tempo de avisá-la. Cheguei do trabalho e disse sem meias palavras:

- Vou com você esse ano!
Agora vendo essa cena, outra me veio à mente. Lembro-me que Genoveva fez uma cara de surpresa, abrindo a boca, gaguejou um pouco, mas logo os olhos brilharam, talvez de contentamento e me abraçou longamente.
Conto tudo isso em detalhes, as nuances de olhares, frases não ditas, para que a cena que vem daqui a pouco não os pegue desprevenidos como eu fui pego.

Acumula a espuma num papel.

A janela dava para uma varanda comprida, ramos de um flamboyant entrava, pequenos pássaros vinham cantar nos galhos  e sobre o parapeito  descansava  uma trepadeira chorona. “Pensei logo comigo,” delicioso lugar para se ler um bom livro.
 A sogra chamou-nos a varanda e quando deslizou a porta de correr, eu contagiado, pareceu-me ouvir ainda “Advinha quem está aqui?”. Ela falou com alguém?
Minha sogra chamava-se Helena. Sabe aquelas velhinhas que vemos como fadas?  Era ela. Melenas brancas, finas repartidos ao meio, com um laço de fita rosa completava o penteado. As maçãs do rosto rosadas.   A dentadura com dimensão alterada deixava-a com um sorriso perene. Não era o sorriso de Mona lisa, a Gioconda. Era algo indeterminado.   
No famoso quadro, o autor, usando a técnica de sfumato, pintou  uma mulher com uma expressão introspectiva e um pouco tímida. Uma incógnita.
Incógnita foi quando deparei-me com uma figura, um pássaro, precisamente um papagaio, que começou a gritar quando  Genoveva  aproximou-se.  Gritava a plenos pulmões:
           -Eu te amo Antonio! Eu te amo Antonio!
Enquanto dizia isso abaixava a cabeça para receber carinhos no cocorote.
Assim vi sobressaltado Genoveva coçá-lo enfiando os longos dedos ornado por uma aliança dourada, entre a grade, as unhas compridas e bem feitas, alisá-lo e dizê-lo baixinho:
          -Não fala isso seu chato!
O papagaio era verdadeiro. Vi pelas cores -  verde com cerca de 38 cm de comprimento.  Tinha penas azuis na testa, acima do bico e amarelo na cara e coroa.  A cor da íris era vermelho-laranja. Uma  fêmea.   Devia ser velha, pois o bico era negro. É uma das espécies mais inteligentes de ave do planeta. Sua expectativa de vida é de oitenta anos. Os papagaios-verdadeiros também costumam repetir o que ouvem de seus donos.
Essa última característica é que me sobressaltou.
Assim eu aproximei-me  de Genoveva  e perguntei-lhe baixinho:
         -Amor! Quem é Antônio?
Ela fez um esforço supremo para não ruborizar. E disse entre dentes:
          -Ah! Não! Já vai começar com seus ciúmes infantis? E saiu batendo os pés em direção ao quarto. Sai atrás. Joguei a mala num canto perto do corredor.
Cerquei-a junto ao guarda roupa.  Genoveva tinha aberto a porta e se olhava ao espelho.
Repeti:
          -Quem é An-tô-nio?
Ela enfiou as mãos pelos cabelos, jogou-os para trás e falou pausadamente:
          -Não sei e nem quero saber! Aliás, tenho raiva de quem sabe! Ora essa! Se enxergue homem! Só falta agora ficar com ciúmes de um nome que um animal fala! Só falta essa!
          -Uma ave e muito inteligente por sinal...
Continuei:
          - E essa ave, fique sabendo que repete tudo  que ouve diariamente.
         -E daí? O que é que eu tenho com isso? Ora vá vá...
Genoveva não completou a frase, deixando-a aberta a vários sentidos, por exemplo:
1-Vai tomar no c...
2- Vá pra a pqp
3-Vá pentear macaco!
4-Vá para a baixa da buchuda!
5-Vá para o diabo que o carregue!

Não a deixei terminar. Saltei em cima dela e a beijei ferozmente na boca, no pescoço, os seios, os mamilos. Ajudei-a a tirar a camiseta apressado. A calcinha não deu. Afastamos de lado à passagem. "Foi uma das melhores fodas que demos". Talvez pelo inusitado, com risco da sogra entrar de repente, e a ave gritando sem parar “eu te amo Antonio”. 
Ela me amava eu pensei.

Mas depois á tarde fiquei fulo da vida.

Lembrei de outros detalhes: Flagrei várias vezes Dona Genoveva  suspirando ao telefone. Sabe aquele rosto que fazemos quando estamos degustando algo delicioso? Era o que eu via. Quando eu apontava na porta ela desligava e sempre dizia:
          -Minha mãe, coitada, morta de saudade. Liga todos os dias.
Realmente era sempre o número da sogra. Várias vezes confirmei  na caixa postal. Coloquei a bina, depois que recebi ligações fora de hora e quando eu atendia o “cara” do outro lado da linha não falava.  Era um silêncio aterrador.
Vinha procrastinando há muito tempo uma ação. Pensei em colocar um detetive em sua cola. Segui-la dia e noite. Desisti depois que o detetive falou o preço exorbitante. Complementou ainda algo que me deixou com mil pulgas atrás da orelha: Ele disse sorrindo ao telefone, “cuidado!  quem procura acha!”.
E acha viu! Jogou o resto de espuma junto com o papel no lixo. Prepara outra espuma. Continua:
Um dia desses,  tirei uma semana de férias. Talvez pelo ócio ou pela leitura que dispus nesses dias, pois li toda a obra de Nelson Rodrigues, tinha chagado há um questionamento crível:
“Toda mulher trai?”. Perguntei olhando-me ao espelho:Até a Genô? Era como eu a chamava nos momentos íntimos. Ouvi até um dos personagens de Nelson falar jocosamente: “ A mulher que nunca traiu voa!” “E eu nunca  vi nesses cinqüenta anos uma mulher voando, poxa!”.
Todos riram. Menos o que estava tirando a barba. Era um risco.
De modo que tinha já quase certeza. A certeza aumentou quando ela sonhando uma noite falou um nome estranho, ou na véspera de viajar depilou-se toda, fez as sobrancelhas, unhas, lavou os cabelos, comprou roupas novas, ficou mais carinhosa comigo, de vez em quando eu a via olhando para mim com o olhar vazio ou nada, cantarolava canções, sorria feito criança, exalava um cheiro de rosa doce e fresca.
E a literatura diz que os primeiros sinais são imperceptíveis, como uma negação de  sexo, com a desculpa de dor de cabeça,  uma música cantada no rádio pela manhã, um abrir de janela e exclamar com manhã linda faz lá fora ou mesmo o tempo chuvoso, exprimir felicidade e etc e etc.
E agora surgiu esse nome. Pelo menos o personagem já tem nome.  Já é meio caminho andado quando são denominados. Antônio. Antônio. Eu repetia em minha febre. Pois um homem desconfiado fica febril, o vírus da desconfiança  tira o apetite, passa-se a falar sozinho,  a testa começa a coçar, o pânico de aparecer aquelas duas protuberâncias de ruminantes.
Assim parti para a ação, era necessário descobrir o perfil físico e psicológico, para desenvolver a história, de traição e dor, que se avizinhava.   Todos os detalhes se fundem  na cabeça. As histórias desde as mais simples às memoráveis tomam forma na cabeça. É só ir desenvolvendo calmamente, palavras por palavras, como uma escada, degrau por degrau. A estrutura já existe,  é só ir colocando os fatos, os personagens, na teia. A grande teia. Depois enredar para que fique conciso e  mais fácil a degustação. Mais salutar.  E a voz se faz. Eis o estilo.
Mas isso não se ganha da noite para o dia.
De modo que logo pela manhã calcei o tênis (queria perder a barriga e agradá-la, mais precisamente a mim mesmo) e com a desculpa de uma corrida fui pesquisar pela  vizinhança.
Fiquei sabendo de cinco. Cinco Antônio naquela cidadela.
Logo encontrei o primeiro. Tonhão. Era leiteiro.  Todo o dia, bem cedo deixava um litro fresco na porta de casa. Conversei com ele. Alguns dentes cariados.  Cheirava  a curral. Quando me despedi  com um aperto de mão senti os calos, parecia uma sola de sapato. Pensei:
Este está descartado.  
-Mas como?  Alguém falou. Tem mulher que gosta de homem rústico!
Não! Dona Genoveva nesse quesito era enjoada.  Gostava de pessoas perfumadas, um dia desses quando a perguntei  se por acaso fosse me trair,(brincadeira sádica que todo casal brinca, depois do sexo)com qual pessoa ela me trairia? Com um subserviente, ou com pessoas da alta?
E ela respondeu: “se um dia por acaso me traísse, e deixava bem claro que jamais aconteceria, seria com uma pessoa muito melhor do que eu, fina e de bom gosto”.
Assim cortei-o da lista.
O segundo estava bem ali, na praça. Vestia um terno maior do que o defunto. Suava muito. Marcas no peito, embaixo da gravata e nas axilas. Entregou-me um panfleto prometendo a salvação. Era um pastor da assembléia de Deus. Quando falava, prometia o paraíso, mas eu só prestava atenção num ponto: no canto da sua boca  juntava uma saliva branca que com a ponta da língua, de tempo em tempo puxava para dentro da boca.
-E esse, falou o freguês da barba mais espessa. -Tem mulher que gosta de transar orando!
Não era o caso da Dona Genoveva. Ela, isto sim, adorava transar xingando. Assim descartei-o dizendo-lhe que era católico apostólico e romano.
O terceiro era conhecido por “toinho”. Tinha viajado o mundo todo, pois no passado recente fizera parte do circo de Moscou. Era anão. Escutei-o uma meia hora. Ele contava causos de outros países, de outras nações, falava sete idiomas de modo que o português –brasileiro dele  saía tipo os turistas americanos. Trocando o artigo. Já com intimidade, falei-lhe: “Sabe que nunca vi enterro de anão!” e que ele olhou para mim com uns olhinhos pequenos e escuros e depois colocou a mão na barriga, caiu para trás no gramado  e riu muito, esticando as perninhas no ar. Descartei-o também. Minha mulher um dia dissera: Adoro homem bonito, alto e elegante.
O quarto era um padre. Frei Antonio de Calazans. Um italiano do norte. As faces rosadas, as mãos grandes. Alto como uma árvore frondosa. Quando o vi saindo da paróquia, ele tentava acender o cachimbo a todo custo contra o vento. Eu apressei-me e fiz com as mãos uma concha. Deu certo. Ele agradeceu sorrindo. Os dentes escurecidos pelo uso do vinho e cachimbo. Aliás, eram inseparáveis. Era daqueles à antiga, andava com a bata marrom, e aquela corda amarrando-a a cintura. Ele quis saber se eu pertencia à paróquia. Eu disse que não. Mas que casara com alguém dali, a Genoveva filha da velha Helena. Assim ele disse. Batizei-a aqui. Naquela pequena pia. Uma menina linda. A mãe também Dona Helena  é uma senhora extremamente educada e religiosa, ciente de seus deveres com Deus. A filha a mesma coisa. Por fim convidou-me à missa desse domingo e mandou benção a todos. Descartei-o também. Existe muito filhos de padre, mas não com Dona Genô pensei. Um dia ela me falou entre dentes, Que nunca teve pretensão de ser santa.
O quinto elemento era o que mais correspondia. Um primo distante. Soube que gostava de fazer poesia, bebia sentado na mesma mesa de um bar e enquanto bebia, compunha poesia nos guardanapos, que no final do dia ia limpando a boca com eles, e todos indiscriminadamente iam parar na lata de lixo. Não pelo valor. Achei até que ele tinha futuro. Rimava bem e tinha boa métrica.
No final da tarde acompanhei-o. Íamos falando da vida, do luar da cidade. Subíamos a rua, os paralelepípedos disformes o faziam gangorrear de um lado para o outro, como uma nau no oceano, que o fazia apoiar-se em meu ombro para não cair. A lua estava clara. Lua cheia.
 Ele ia declamando seus versos e eu o ouvindo atentamente, querendo descobrir algo, uma nuance, nas entrelinhas algo que comprometesse Genô, quando demos por si  estávamos eu e ele bem embaixo do flamboyant.  Assustamos ao ouvi, alto e em bom som a frase gritada a plenos pulmões:
          -Eu te Amo Antônio!  Era o papagaio na gaiola.
As flores caídas à tarde coloriam o chão de vermelho escuro.
Despedimos-nos ali.
Seria ele perdidamente apaixonado por Dona Genoveva? 
Segundo alguns, um amor platônico, pois ela nunca o teria lhe dado bola. Além do mais eu soube que  Dona Helena jamais fez gosto. Ele sim pode ter sido usado em diversos objetivos, como,  conhecer um rapaz novo, ir a uma festa acompanhando-a, essas mínimas coisas práticas que servem os primos. E só. Mas sabe-se que os homens ficam sempre por perto, das belas para quem sabe aparar as migalhas.
E também não se  sabe os motivos escusos das mulheres, os pretextos, enfim, só sei que alguém daquela casa, da varanda do bangalô, fazia questão de contemplar esse amor todos os dias quando via um Antônio passar por ali, em direção a casa, e gritar-lhe que o amava.  Isso era fato.
Sadismo? Mau caráter? Inocência? Ser sua musa?
Talvez para ser assunto em suas bebedeiras noturnas, ou mote nos tristes poemas?  
Não cheguei a nenhuma conclusão. Levei o caso à polícia. O delegado escreveu nos autos que não se podia acreditar, em testemunha tão descabida, um simples pássaro. E deu o caso por encerrado.
Não nos separamos. Gostávamos do nosso jeito de fazer amor.
Passei a acompanhá-la nessas visitas todos os anos. Na décima vez, soube que o poeta morreu.   Os versos calaram.
A rua ultimamente ficava completamente deserta. Ou a tarde passava um enterro em silencio, lentamente. O pobre pássaro exaurido, agora  falava mais baixa, em tom rancoroso. “Ele agora vem junto!” “Ele agora vem junto”!
Aos diabos essas falas.
Em todos esses anos tivemos mudanças drásticas. Dona Helena ocupa agora uma cadeira de rodas, a face magra, o olhar perdido. Não fala e não anda. Vegeta. Genoveva pelo seu lado perdeu o frescor. “O estúpido ainda gritava,” te amo Antonio!” E também “Antonio se foi, Antonio se foi”.
Que destino do poeta!  Lembrado por um pássaro estúpido que torra o meu saco.
 Domingo fui à missa.  Trinta anos que o vi pela primeira vez. Frei Antonio fez um belo sermão. Era comentário geral. Sobre a falta de amor entre as pessoas. Subi ao quarto. A árvore de natal piscava suas luzes.  Um corpo numa cadeira. Acenei para Dona Helena.
Chovia lá fora.  A água deixava a paisagem vista pela vidraça semelhante a um quadro expressionista. As cores borradas e vivas. Observei um pássaro verde e amarelo inerte no fundo da gaiola.
Peguei-o com cuidado, e ao choro de Genoveva enterrei-o no quintal. Numa cova rasa. Como os bandidos merecem.

Depois foi Genoveva. Ela foi definhando lentamente. Já não nos falávamos. Nada mais valia a pena. E numa bela manhã, faleceu.
Toda a cidade foi ao velório. Também os quatro Antonio restantes. Ignorei-os. Afinal nunca tive uma prova cabal.
Ultimamente, estou relendo Dom Casmurro. A história é de uma suspeita de traição. Estudo não o fato em si, mas a maneira como foi contado. É o que me interessa hoje. O momento da criação. A estrutura.
Montei essa barbearia faz cinco anos.
A última vez que a acompanhei, lembro mais ou menos dessa cena que vai deteriorando-se com o tempo, um silêncio aterrador na varanda, a gaiola vazia, Dona Helena na cadeira olhando o nada; Dona Genoveva, debruçada, talvez esperando o único amante, que a fizera: feliz, jovem e com a pele maravilhosa.
O velho barbeiro abaixa a cadeira, tira o lençol, dá o retoque final no rosto do estranho e pergunta:
                  -Qual o seu nome?
O homem paga com uma nota, faz uma reverência e diz maliciosamente:
                  - Antônio! A seu dispor!
Risada geral.
21 de Abril de 1964.








quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

A sombra

                                  A sombra





          Angel, inquieto, observava as folhagens. O vento chacoalhava forte e levavam as folhas e as nuvens para longe. O dia claro. O céu límpido, de brigadeiro. Todas as manhãs ele era posto a brincar ao ar livre, cuidados da mãe, para crescer com saúde e bons ossos.  A mãe o tinha lavado, penteado e vestido.

          De modo que essa manhã corria de um lado para o outro, com um avião de papel cruzando mares e montanhas distantes. Os mares eram poças da chuva que caíra de madrugada. As montanhas um entulho de areia e pedra, restos de uma construção.
Parou no final. Olhou os paralelepípedos brilharem ao sol. Depois de observar um tempo talvez chegasse à seguinte conclusão: não era lá uma rua, porque tinha só quatro casas. A dele, azul com varanda e caixa de correio, a da viúva Dona Joaquina, com a goiabeira que servia de poleiro para os passarinhos, a de Celso, um sobrado imponente e frio e uma quarta recém construída novinha em folha.  Do lado direito, um terreno baldio.

          Angel estendeu o braço e jogou-o pela enésima vez: “com a força dos trovões”, gritou e observou admirado, o voo silencioso e acrobático da aeronave se aproximar do meu rumo, passar próximo da janela e depois de uma curva bonita no ar, pousar em perfeita aerodinâmica a seus pés.

          Ele, Angel estava excitadíssimo. Quem seriam os novos moradores, tentasse assim adivinhar?  Hoje usava cabelo de franja na testa, bermuda de linho cinza, camisa de marinheiro e uns sapatos pretos engraxados, até o brilho máximo.  Soube que apertavam-lhes os dedos, era do ano anterior, ele disse.
Pegou a aeronave e observou se havia algum dano. Nenhum.  As asas perfeitas, o bico incólume. O piloto ileso. Após uns segundos inertes, pareceu que notou algo admiravelmente estranho, pois andou de um lado par o outro.

          -Que incrível! Dissera. Aprendera essa palavra com seu pai, quando o homem pisou pela primeira vez na lua. E ele a repetia agora. –Incrível! Incrível! Tanta complexidade!
Analisou que a seus pés algo se mexia.  E o que fosse aquilo, o imitava descaradamente. Seriam extraterrestres que após o bisbilhotamento do homem a lua veio investigar-nos?

          Juntando-se essa nova, mais o ímpeto infantil, dizia-se dele hoje, sem dúvida nenhuma, uma espoleta só, no frenesi das mariposas em voo para a luz.
Nisso parou do outro lado, mais atento.

          Então, balançou o braço esquerdo e observou que a coisa também.  Depois o braço direito, as pernas e foi dificultando para desmascarar o imitador. Assim deram algumas cambalhotas e incrédulo ao perceber que a coisa o seguia em todos os movimentos, nos mínimos detalhes, mesmo os mais difíceis.  
Acenou-me.  Acenei de volta com o dedo polegar em riste, para que ele não pensasse que estava ficando “biruta”. Pois quem o olhasse, pensaria no mínimo que ele estaria em apuros, fugindo de abelhas ferozes.
Pelo contrário ele se divertia a “bessa”.  Corria, gargalhava, se equilibrava no meio fio.
Passou a manhã inteira assim. Em êxtase. É sóbrio dizer que não há felicidade completa. Há uma incompletude nas coisas.
  De tempos em tempo a mãe o olhava pela janela e sorria. Abanava a cabeça como quem dizia:

          -Ah! As crianças! Que mundo mágico o deles!
Quando na mesa para o almoço talvez contasse a novidade para a mãe. Talvez ela sorria e dissesse:

          -Ah! Angel! Angel! Você é um sonhador.

          Deve ter comido as carreiras, pois logo apareceu. E quando saía a mãe pediu-lhe para voltar e escovar os dentes. Fez isso sem discutir. Comeu também todo o legume com gosto de mato. Tudo. Mostrou para a mãe o prato limpo.
Angel foi andando e a coisa o seguindo e quase esbarrou na menina que apareceu de repente ao seu lado. Ele ficou um pouco desconcertado eu sei. Mas fingiu bem.

          -Oi! A menina disse.  Ela segurava uma boneca pela perna e os cabelos loiros tocavam o chão. Fiquei curioso.

          -Oi, respondeu Angel.  E completou: -Ufa! Quase te atropelei!
-Por um triz! Ela disse sorrindo. Era uma menina dos seus nove anos.
Os olhos dela era tão azul que confundia com o céu.

          -Você é a nova vizinha? Angel perguntou.
          -Sim! Em carne e osso. Ela tentava agora se equilibrar no meio fio.
Eu sorri no meu canto.
          -Eu sou Angel, - aquele acolá É Celso. Quis esconder-me, mas depois acenei. Entrei sem querer em cena. Ela acenou para mim também.
          -Maria Isabel Ptolomeu, mas pode me chamar de Bel. Ouvi-aela falar bem explicado.
Ela sentou-se ajustando o vestidinho às pernas brancas que nem cera. A boneca no colo. Disse: 

          -Vamos brincar?

          -De que? Respondeu Angel. Eu fiquei calado. Não tem muita brincadeira que eu goste. Só se for passa anel, ou adedanha. E tem que ser com perguntas difíceis.
Mas ela gritou:

          - Esconde esconde!
          -Epa! Foi a exclamação de Angel.

Desci. A empregada empurrou-me até a rua. Aqui está bom, disse. A menina olhou-me de cima a baixo. Parece até que ouvi falar: “Mas e ele assim...”. E não é que Angel parece ter dito algo como, “pois é, mas a mãe dele quer que, a todo modo que ele brinque, para socializar e divertir”.
A menina olhou para o alto. Depois falou:
          -Ok! Mas quem conta primeiro?
          -Meu amigo ali o Celso.
Logo concordei. Não tive escolha. Afinal o diferente era eu.
Antes de começar ela queria saber tudo. Por que eu não andava, qual o problema.

          -É de nascença eu disse, para acabarem de vez as especulações.
Ela olhou para mim. Fiquei no canto da parede e comecei a contar. Achei engraçados, uns pontinhos de suor no nariz dela.
Comecei a contagem. 1, 2, 4, 3, 7, 10, 90... Não sabia contar direito.
Eles correram.  Virei-me e fui à caça. 

          Os paralelepípedos eram pontudos, fazendo-me chacoalhar na cadeira. Sem demonstrar fraqueza fui galgando uma a uma. Alias estou ficando perito em ser forte.  Forte em não demonstrar meus verdadeiros sentimentos. Cheguei frente ao muro da dona Joaquina, uma lagartixa correu assustada, parou na frente e ficou me olhando. Balançou a cabeça duas vezes.  Olhei através dos tijolos vazados. Gritei:

           -Angel! Atrás do pé de goiaba!

           Nisso Isabel apareceu correndo do terreno baldio. Tocou no poste atrás de mim. Ela tinha se salvado. Na corrida o vestido subiu um pouco a cima dos joelhos. Agora eu tinha que correr até o poste também. Assim com furor, puxei as rodas violentamente. Não podia perder essa. Quase caí para trás. Seria uma fatalidade. Um menino quase imobilizado cair da cadeira de roda de pernas para o ar. A cena seria grotesca demais eu pensei. Eu tinha que chegar primeiro. Angel saltou o muro e veio correndo como um cavalo louco. Dei tudo de mim. Os rolamentos rangeram em velocidade.  Parecia que eu remava contra a correnteza. Toquei no poste primeiro. Ufa! Foi por pouco!

          Olhei a rua. A palma da mão doía. Via tudo como se olhasse para um abismo.  Mas pensando bem, sobre o abismo pode-se voar. Era só criar asas.
Agora era Angel quem contava. A brincadeira continuou até quase anoitecer.
Podíamos brincar mais uma vez até o sol se pôr. Isabel contou. Eu corri para um esconderijo que só eu sabia. Correr era metáfora. Minha mãe adorava essa metáfora. Perseguia-me nos passeios dizendo, corre, corre corre. E eu ria muito.
De onde eu estava dava para vê-los tranquilamente sem ser visto. Angel foi para o mesmo lugar. Vi quando Isabel aproximou-se dele, conversaram alguma coisa, ficaram bem próximos, acho que Angel afagou-lhe seu rosto e beijou-a rapidamente. Mas ela não gritou.  Pensa bem, quando Isabel viu Angel era para ter gritado que o tinha achado. Assim eu gritei:

          -Parei de brincar disso!

 Isabel era muito curiosa. Por exemplo: queria saber de tudo, de minha vida particular. Queria saber como eu fazia pipi, se eu nunca ia andar, nem correr. Mas tirei essas perguntas difíceis de letra. Fingi que tudo era igual. Que minha casa era apropriada.  O vaso era mais baixo, tinha corrimão em todos os lugares. Depois queria dirigir minha cadeira. Até correu comigo. Tive que usar os freios. Ela queria até trocar de lugar comigo, para ver como era andar de cadeiras de rodas. Depois a convenci que não era necessário. Era só usar a imaginação.
Comecei brincar com ela de quem pisca primeiro.
Ficamos assim olho no olho. Ardia pra “chuchu”. É lógico quem piscou foi ela. Usei o truque de ficar concentrado numa pintinha que ela tinha bem embaixo do queixo. Entre a covinha. Ela tem o nariz um pouquinho, só um pouco arrebitado.  Descobri que ela era teimosa como uma mula. Confesso: Ela me fazia perder o fôlego. Quando estávamos assim no bem bom, eu descobrindo ela pelos seus olhos, Angel mudou de assunto.
          -Agora que somos íntimos, vou contar um segredo! Disse ele.
          -Certo! Cada um conta um! Entrei na brincadeira.
          -Mas tem que ser aquele segredo que te dá arrepios! Disse Isabel com sua eloquência.
Assenti em silêncio.
          -Olha aqui!
Angel pediu para olharmos para ele.  E ficou feito bobo balançando os braços. Pergunta:
          -Não observaram nada?
          -Não! Dissemos eu e Isabel em uníssono.
Ele balançou a perna direita.
          -E agora?
Ficamos olhando para ele calados.
          -Aqui seus burros, não vêem? Apresento para vocês o meu mais novo amigo. Vejam! Tudo que eu faço ele faz também.
          -Ah! Que legal! Eu tenho também! Gritou Isabel. Olha! Correu pela rua.
Eu não estava bom com eles não. E aí gritei:
          -Dois idiotas! Os dois são idiotas! Não vêem que isso, que nos imita, que não larga da gente é simplesmente uma sombra! Que todos têm! Aliás, toda matéria tem. As pedras, as árvores... Tudo.
Eles ficaram um pouco chateados. Aí Isabel para não ficar envergonhada disse:
          -O vento não tem!
          -Claro que não! Continuei. Existem coisas que não vemos, mas sentimos!
          -E as nuvens têm? Angel mostrou uma nuvem com a forma de um touro.
          -Tem. Fraquinha, disse Isabel. Quando está pesada de chuva. Aí sim tem.
Nesse momento parecia que Isabel olhava para mim. Os olhos pequeninos, azulzinho, miúdos. Já conhecia os olhos dela quando ficavam assim miúdos. Disse ela:
          -Ah! Agora já sei! A sombra é a cópia do corpo. Apontou com o dedo.  - Veja a sua. Parece uma cadeira ambulante.
Fiquei pálido. Mas já sabia fingir. Movimentei a cadeira. Fiquei por trás dela. E disse:
          -Veja! Estou te abraçando! E alongava minha sombra sobre a dela.
          -Tá nada! Ela disse se encolhendo.
          -Agora estou te beijando, veja! Continuei a brincadeira.
Aí ele me cortou gritando:
          -Tá nada ela disse ainda, quase chorando. Como não sinto?
Eu destilando minha raiva.
          -A sombra é assim mesmo sua tonta! Não a sentimos, não tem cheiro, mas existe.
Angel Observou:
          -Sabia que depois do meio dia ela só vai crescendo, ficando comprida até desaparecer?
          -Claro! Até o sol se pôr. Angel disse. – Veja a cadeira como está comprida. Apontou para mim.
Aí eu gritei:
          -E você, é uma besta quadrada!  Achava que a sombra era uma pessoa! Que imbecilidade!
Depois ficamos um tempo calado.
Aí Angel deu-me o avião. Joguei com força. Fez uma curva aberta, subiu e veio embaralhar nos cabelos de Isabel. Caímos na gargalhada.
          -Bem feito. Eu disse. Ela pegou o avião e o rasgou.
          -Agora conta o teu segredo, falou Isabel olhando para mim.
Eu olhei bem dentro dos olhos dela e disse:
          -Meu sonho é ser escritor, eu disse.
Ela corou.
          -Grande coisa, disse ela.  Vai ser um pedinte. Escrever não dá dinheiro! Embora tem muitos que...
Não completou. Alias Angel não deixou:
          - Fala o seu agora, queremos saber!
          -Então tá, ela falou. Olhou para o céu, depois para o chão e disse: 
          -Eu estou apaixonada!
Ficou cutucando o chão com uma varinha. Naquele tempo paixão era uma palavra. O significado não levava a ação. Sabia-se apaixonado e só. Não se beijava nem se abraçava. Era uma coisa distante como o sol. Estava lá em cima. Intocável.

Rimos. Falamos na mesma hora.
          -Que coincidência!
Ficamos os três olhando para o chão. Ela falou:
            -Sabia que a sombra nasce com a gente e só nos larga quando morremos?
          - Quando meu avô morreu não prestei atenção! Angel disse.
          - Será que tem um mundo só das sombras? Disse Isabel pensando.
Deve de ter, eu pensei. Achei Isabel um pouquinho fria, uma personalidade pedante.
Aí Angel contou a surpresa:
          -Sabia que hoje é meu aniversário?  E que vocês estão convidados?
 Os dois ficaram correndo em volta de mim até cansarem. Rimos muito.

                                                              *
          

          Meu pensamento divagava, longe nessa história singela. Fazia na mente o mesmo que pescadores experientes fazem. Usam e abusam de engôdos diversos para ludibriar suas presas. Difícil escapar, pois os peixes morrem pela boca.
Depois de estudar por anos a estrutura, nos diversos livros que falam da poética, ainda não achei por assim dizer, o graal, isto é a estrutura que dê ao texto, simplicidade, autenticidade, compreensão, forma, para atingir o ápice.
Copiei, copiei e copiei. Criei pouco ou quase nada. Como disse o velho Mago do morro do livramento, “Há histórias que não pertence ao autor nem o título...”
Eu queria usar essa história como isca, não importando os personagens que são meros coadjuvantes, nem a história que é banal, mas uma frase que a personagem feminina disse e a levei para toda a vida:
“A sombra é cópia do corpo!”.

Nesses anos todos, já se passaram quarenta anos, construir um catálogo de obra razoável.  Tenho vários romances depositados em bibliotecas pelo mundo a fora. Outros tantos dormindo numa pasta esquecida do computador. No início eu queria só a glória, ser reconhecido, ser eterno.
Mas verdadeiramente escrevia para uma única pessoa. Isabel. Mas era indescritível a dor da incerteza. Queria que por acaso uma das obras minhas tivesse caído em suas mãos e ela ao ler desse um suspiro. Mas isso é um sonho impossível.
Um ano desses, chamaram-me para uma mostra em minha cidade natal. Relutei. Não me achava preparado. Arrumei uma desculpa qualquer, estaria escrevendo um novo título, e assim não parava nem para comer. Uma mentira razoável. Soube que tem escritores que agem assim. Deixaram-me em paz, portanto.
Um ou outro livro meu, os críticos deitaram algumas vezes o olhar. Se, gostaram não sei, mesmo por que, isso perdera a importância. Entre tantos títulos houve alguns Best-Sellers que entupiram minha conta. Foi uma época de orgias e prazeres.
  Mas só de sexo e comida não vive o homem. Principalmente quando a fama e dinheiro vêm desses romancezinhos que escrevemos de um fôlego só: raso, entupido de sexo e ação. Mas que o grande público adora.
Não cuspo no prato que comi isto não, pois essa fase ajudou-me, na jornada. Afinal foram esses textos que pagaram minhas contas, viagens, mulheres, bebidas...
E a história de um escritor não é nada mais do que, a jornada do herói.  Assim devemos colocar todos os elementos inerentes na estrutura para que a vida seja aprazível.
Porém são essas nuances que me deixavam na maioria das vezes constrangidos, pois parecem imitações baratas.
Nesse afazer, “solitário”, o escritor é a soma de tudo que viu que leu que viveu que sentiu...
Desses atos acima acredito piamente na leitura.  Pois a respeito da vida, vive a vida dos outros. A leitura essa sim é: salvação e perdição.
Muitas vezes somos criticados por criar, meros pastiches. Acredito que sim. Todos esses anos tento livrar-me dessas influências, e até empaco como burro frente a uma lauda, e nesses dias de sofrimento, as páginas são só preenchidas após muito suor e lágrima.
E são nesses dias dolorosos que me vem a frase dita por uma criança pura, mas que parecia um corvo, o mesmo que assombrou outros escritores. Pois estaremos sempre andando em direção ao abismo. E o corvo piando.
Quarenta anos se passaram.  E a frase martela dia e noite em minha cabeça.
Um belo dia recebi um e-mail que dizia:
“Sr. Celso Furtado da Silva, convidamos o estimado escritor, para participar do primeiro numero de nossa revista de arte”.  
Com o objetivo de criar, como dizia o texto, o enlace harmonioso autor/leitor, era o principal motivo para o lançamento da revista, a “pro - letras”, e dizia em seguida que eram para abrir espaço para literatura, artigos sobre educação, política, saúde, notícias, vídeos, imagens  e artes diversas, em português e outros idiomas.
Para aguçar a curiosidade, dizia ainda, “a revista, apesar de recente, já conta com autores conhecidos, e de renome mundial” e citava alguns nomes. Uns conhecidos e outros nem tanto. Enfim avisava que, “para escrever na pro - letras é necessário fazer a inscrição e aguardar um e-mail de aprovação, mas que meu nome já tinha sido aprovado pela diretora e produtora Dr. Isabel Ptolomeu.
Bem antes desse e-mail, soubera por um conterrâneo, (temos esse terrível defeito de querer saber da vida dos amigos, no intuito de medirmos as vitórias e também os fracassos) que Angel se tornou piloto de caça da força aérea. Que também adorava esportes radicais.
Já Isabel tinha se tornado uma médica super reconhecida mundialmente e pelo que sabia até ali tinha mudado para São Paulo.  Até aqui morreu o neves, eu disse. Nunca mais nos vimos.
 Tenho montanhas de anotações. Essas anotações estão numa pasta que a denominei de secreta. Que antes dessa correspondência, não tinha ideia de editá-las e muito menos publicá-las.   Pensava: essas jamais vão brotar. São sementes podres. Jamais serão romances. Jamais será algo. Não pela qualidade.
Mas por que fiz a vil promessa, de escrever uma lauda diariamente, sem usar nada conhecido, nenhuma estrutura que seja, a não ser, o inconsciente. Isso por que meu sonho era escrever uma obra maior, sem interferência externa, vir de um embrião sem pai e sem mãe.
E tais anotações foram-se se acumulando, num espaço dedicado ao entulho. Mas o pandemônio do tempo é estarrecedor. Vem como uma máquina fora dos trilhos.  E assim escravo deste monstro que criei, todo dia, tal autômato, vou dedilhando as teclas, e estas formando palavras, frases, orações, parágrafos, numa loucura inimaginável. Imagine alguém que se furte a vida inteira a amontoar pedras a beira de um caminho. Formará uma montanha sólida, mas amorfa. Foi o que aconteceu comigo.
E os anos foram passando um a um. Lia dez vezes mais do que escrevia.  As coisas iam ficando inacabadas.  Acumulando, criando mofo, perdendo as cores.
E aí surge esta oportunidade de cuspir tudo para fora. Colocar tudo e talvez conseguir o reconhecimento de Bel. Meu Bel de outrora.
Queria provar que ela estava errada.
E assim dia e noite fui tirando da pasta secreta um por um e editando-os (o trabalho prazeroso dos cortes), pra que o texto fique o mais enxuto possível.


Em seis meses ficaram prontos.  Justo quando dei por acabados uma notícia estarrecedora: Isabel tinha morrido num acidente, voltando para casa. Quem me contou disse ainda: Um acidente bobo, perto de casa.
E agora como eu ficaria? Como a responderia?
Meu luto foi curto. Lembro que fiquei atarantado uma semana. Sem comer e nem sair. Depois  já estava comendo, bebendo e fazendo sexo normal.
Os escritos é que submergiram.
Tudo foi jogado numa gaveta e esquecido por um longo tempo.
Só hoje quando completaria dez anos de seu falecimento pude reler alguma coisa.
Sou categórico em dizer: Nessa vida somos tudo: Puta, bandoleiro, cafetão, jornalista, poeta, dentista, médico, empresário, juiz, mocinho, bandido, ditador, médico etc. e etc. Tudo o que queremos ser.
Tinha a ideia megalomaníaca de ser Deus. Um deus à beira do abismo.  O olhar no vazio. Um olho no inferno outro no paraíso.
Esse tempo todo na lida, copiando,estudando diversos autores para melhorar os textos.  Meu sonho era escrever “O Romance”. O grande texto.  Assim enquanto escrevia amenidades, Li o sistema de Stanislavski: Em que diz: O primeiro aspecto do sistema é colocar o inconsciente para trabalhar. O segundo é: Assim que se inicia, deixe-o de lado (leave it alone).
Ele dizia que o subtexto é tudo aquilo que o ator ou personagem, diz, não com as palavras, mas com o corpo. E é justamente aí onde se encontra o graal.
Aí eu passei a anotar as falas de pessoas comuns. Nas ruas nos bares, em casa.  O que interessava mesmo eram as ações.  Na face está o que não se diz. A verdade crua.  E acredito que o ator completo, é aquele, que além de falar o texto, passa o que está nas entrelinhas.  “O que vem para a face, estão nas dobras do texto”. Um personagem pode dizer: Eu te odeio, e transparecer para o público: Eu te amo! E vice e versa.
Assim foi quando, há exatos oitenta anos aquela menina, Bel disse:
-As sombras são a cópia do corpo, a sua se assemelha a uma cadeira!”“.

 E só agora depois de longos anos tenho a coragem de respondê-la:
“As sombras sim, existem. Falo agora categoricamente. Mas só do corpo. A alma é transparente. E ela a sombra, nas nos abandona na morte. A alma sim”.
Digo mais:
  “A sombra, a terrível sombra que todos temem, é somente cópia do corpo, não da alma”.


       Brasil, 29 de Dezembro de 2016








quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

Aleppo

                                                                      


                                                Alepo



O sol nascerá amanhã com os raios dourados
Ouro esparramado, sobre o solo, estéril de Alepo?
Cidade em ruína, ao relento do tempo,
Dos inocentes mortos, crianças
Maioria, órfãos de amor,
De tudo afinal,
Gritos inocentes,
Vida inútil e vã
Entre forças
Descomunais,
À sombra e socapa
da retina cega do mundo,
Genocídio, guerra infame,
A despeito das bombas e rajadas,
o silencio aterrador
Dos humanos,
Desumanos que
Por fim gritarão:

-Feliz natal! Feliz ano novo!