sexta-feira, 2 de março de 2018

A oficina









          Um dia desses, resolvi fazer uma oficina de escrita. Eu comigo mesmo. A ideia era pegar uma notícia e transformar num conto. Escolhi o drama. Fisguei na coluna policial. Um assassinato. A morte dessa forma causa estranheza e drama. O natural é de velhice. Os pais primeiros que os filhos, sucessivamente.

           Escolhida a notícia mãos á obra. Comprei uma resma de papel tamanho a quatro.  Foram meses de anotações. “Se dobrarmos um jornal como um pano molhado pinga sangue”.  Os personagens  foram vizinhos, amigos, família, todos entraram no rol.  Depois vou descartando.  
 Tenho a estrutura, a planta baixa como disse Autran Dourado e vou capengando na jornada do herói.
Vou escrevendo sem medo. O escritor deve ter coragem de se expor, mostrar as vísceras, as feridas. Isso serve de remédio  para  curar alguma doença com o tempo. A ferida deve ser aberta logo no início, para chamar a atenção do leitor. Basta uma lauda para que fisguemos ou o perdemos.  A isca tem que ser bem feita, tem que ter odor, beleza, som, sensibilidade e  gosto.

          É como vê uma pessoa espremer um limão em sua boca.  Só em pensar suas papilas e glândula produzem saliva. A escrita deve ser assim também. Se o texto é para causar medo, sua adrenalina vai subir em porcentagem em seu sangue e assim por diante, os parágrafos deve causar ódio, ira, náuseas, êxtase e gozos
.
          Não tenha medo. Ame o personagem  e  odeie outros, pois no dia que não sentires nada, é o fim.
          A escrita é terapia. Já deixei de matar muita gente por que escrevo. Os motivos são vários. Cada um tem o seu. Faço assim: Vou falando sem medo como estivesse na poltrona do psicanalista. Se não gostar da figura do psiquiatra, fale para um gravador. Imagine falando com o melhor amigo, se preferir sua mãe ou até em confissão com um padre. Mas seja honesto. Pois a honestidade é o caminho para surgir algo bom, que valha a pena publicar. Mas não se iluda. A gênese não é palpável. Você às vezes escreve pilhas de papel para surgir uma frase, uma frase somente. O resto deve ser jogado no lixo. Os  escritores, observação própria, criam mais lixo. Mas não esmoreça. A prática  melhora a técnica. Ou você pensa que algo bom brota  com a inspiração. Não. Como já disseram antes, noventa por cento é suor. O violonista para ter a técnica ele treina todos os dias um mesmo solo  até a exaustão. O tenista para sacar perfeito, bate na bolinha amarela mais de mil vezes. E haja suor. E porque você acha que o escritor deve confiar somente na inspiração? Neca de Capiberibe! Isto quer dizer: “Nunca, jamais!”, como o corvo repete na poesia de Poe. Aliás há um tutorial nessa poesia. Ele dá o caminho das pedras.

          E assim peguei o vício da escrita. Já larguei o cigarro, a bebida, mas não fico sem escrever algo nenhum dia. E leio bastante. A leitura é osmose. Sem notar tem muito dos outros em mim. Fazemos parte de um todo. Um emaranhado,  tecendo outras histórias , outras vidas.

          Um dia viajando de trem, eu vi alguém numa parada.  Uma mulher. De relance. Mas essa cena ficou em minha mente. Eu tentei escrever algo, primeiro um poema. Falava dos seus olhos negros. Falei das malas, das bagagens. Não decolou. Às vezes acontece assim. E é melhor. Um dia sem esperar ela vai surgir, tenho certeza. Assim vou olhando cada esquina. Cada parada.

          O que faço muitas vezes é estudar alguns textos. Tentar decifrar como aquele autor conseguiu aquilo, o ponto do bolo, sem queimar, e sem passar do ponto. Lembro de minha mãe seguindo as receitas com todo cuidado. E os bolos muitas vezes ficavam fantásticos. Ela se tornava cada vez mais “Expert” no assunto e depois conseguia fazer  sem receita e ao mudar alguns ingredientes e fazer um novo, só seu, ficava feliz.  Era o bolo mais gostoso do mundo. Feito com carinho e amor.  É o que fazemos. Destrinchamos textos para compreendê-los.

          E importante. Não elimine cenas  só por que você já viu parecida noutros romances. Todos têm visão diferente das coisas. Já pensou se ninguém mais pudesse falar de um pôr do sol só por que alguém já falou? Mude seu ponto de vista ou use o mesmo com outras palavras. Afinal ninguém é dono de uma cena. Ou é? E se a cena afinal não ajudar em nada a narrativa, descarte-a agora se tiver importância crucial para ressaltar algo a mantenha sem preconceito.  A história sim tem que ser diferente, o resto pode ser comum. Um crime é comum até colocarmos os sentimentos, responder perguntas, aflições...

          “Ele não saiu pronto para matar e matou...”.
Apaguei.

         “Uma bala é confeccionada por um ser, para ganhar salário, sustentar a família e filhos e tirar vidas...”.

Descartei.

          “Antes de sair, sem desconfiar do que ia acontecer, rezou, tomou café com a família e saiu...”.

Ridículo.
          “O assassino depois do fato chorou nos braços da mãe da vítima...”

          “Larissa tinha sonhos tão grande, mas findou porque estava na linha imaginária de uma bala perdida...”

          “Ele deu o celular e mesmo assim o ladrão o matou...”.

I     Cursor parado na tela. Esse é o drama.










Gênese













http://www.caldinas.com.br/2011/05/curso-referencias-sobre-campbell-e.html

Gênese


Tão ansioso ao abrir da cortina,
  ator iniciante
Que cega-se a luz e
o ar dói-lhe o peito,
 Desamparado
bem sei
ao redor o desconhecido
chorei
teu seio, meu aconchego
suguei
dormi o sono dos justos
sonhei
Teu colo morno e suave
Brotei
Na minha jornada.



terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

Do lar


Foto retirada do site  https://br.123rf.com/photo_12488692_casal-se-beijando.html?fromid=Rk9NNVppOXZ2aXF0QVBTSGRqNFVaQT09



                                                                   Do Lar

         Casados há pouco, eram como dois pombinhos. Viviam se beijando pela casa. Já tinham experimentados todos os cantos para o amor. Muitas vezes pegávamos suspirando “o amor é lindo”. E assim se passou longos anos.

          De resto que Marina agora mãe de gêmeos, achou por bem arrumar uma empregada, tinha muito trabalho, estava fazendo a faculdade uma pessoa  para ajudá-la nos afazeres. 

        O marido era empresário no ramo de exportação e passava quase o dia todo fora. Ele prontamente aprovou, seria também uma companhia. Ele disse. As amigas é que não. Disseram: 

          -Outra Mulher em casa! Menina! Lá em casa não. Nem morta!
A outra:

          - Ainda por cima tão linda! Vejo falar tantas coisas, tem muito homem aí com filhos fora que a trouxa da mulher só sabe no velório. Como dizia meu pai, o porco e homem só se conhece depois de morto.Comigo não jacaré!

          Marina não deu ouvidos, afinal confiava em seu marido. E dele tinha sempre ouvido coisas boas do tipo, um homem elegante respeitador e de família.

          Assim se passaram os anos. Os filhos formaram e na formatura estava lá, a babá que os criara. Recebeu de gratidão buquê de flores e menção no convite.
Era um convite preto, de veludo, com letras desenhadas em dourado muito bonito por sinal, devem ter gastado uma grana. Dizia na folha interna:

“Agradeço aos meus pais Marina e Sérgio, pelo apoio e dedicação,
 “Aos amigos por nos aguentarem esse tempo todo sem reclamar,
“Aos avós tão fofos,
As namoradas,
“E principalmente a Patrícia, nossa segunda mãe, esse anjo que caiu do céu em nossa família, obrigado por toda amor, dedicação e paciência”.

          Marina sorriu no dia, vendo os gêmeos dançando a valsa com Patrícia.As namoradas enciumadas.

          Marina, num vestido longo da cor azul, enfeitada de pedras, deixava partes dos seios a mostra, sem lascívia, somente parte física  formosa que os gêmeos mamaram até os três anos. Pareciam dois bezerros, ela dizia  rindo, com os dentes branquinhos e o lábio rosado. A festa estava linda ela falava e seus olhos brilhavam. As amigas estavam iradas. Uma chutava a canela das outras. Apontavam com acenos.
No outro dia não falavam outra coisa.

          -Como pode tanto “topete”!    Tomando o lugar da mãe na hora mais sublime e orgulho, que é a hora da valsa.
Marina dava gargalhada.
          -O que é que têm meninas, eles a adoram! E ela é uma querida!
          -E você não tem ciúmes?
          -Mas de que? Ainda mais que sou péssima partner. Piso sempre no pé de quem eu danço.

          Diferente de Sérgio. Ele sentiu um baque. Não demonstrou. Na hora até aplaudiu demoradamente. Foi até exagerado. Continuou sozinho depois que os outros pararam. Tinha tomado uísque a mais. Depois da valsa, ele saiu do salão para fumar um cigarro, eu o observei bem,  os ombros um pouco caídos. Debruçou-se no parapeito e ficou olhando as roseiras. A menção do seu nome foi mínima, ele que morria de trabalhar ficando até tarde no escritório, para dar-lhes todo o luxo, carros, faculdade particular, e quem ganhara os elogios, os holofotes, merecido claro, mas ele merecia mais.
Assim decidiu que a partir daquele dia, iria dedicar mais tempo à família, e naquela mesma segunda- feira fechou mais cedo o escritório de importação e exportação e veio com seu carro pela avenida, sentindo-se mais leve, a brisa do ar estava gelada, choveu, as luzes da cidade refletiam as cores vivas nas poças do asfalto repetindo cenas de filmes. Estacionou na garagem. A luz do quarto estava acesa. “Será uma surpresa e tanto para Marina!  Ela vive me cobrando, que eu trabalhos demais, que isso e aquilo...
Subiu os últimos degraus assoviando a música tocada em seu casamento.  “Can I Have This Dance”. Lembrava bem.Marina estava linda de branco. Foi à maior festa dos últimos tempos.

          Empurrou levemente a porta. Só as luzes do abajur. Um vinho aberto pela metade, duas taças.
         Na cama um casal inusitado:

          Marina e patrícia beijavam-se loucamente. Ele nem sequer foi notado.

          Fecha a porta.

          Entra no escritório e dá um tiro na cabeça.

          Isso foi tudo.






quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

Rali dos sertões



Foto copiada do site: http://sigcomunicacao.pressroom.com.br/265642d040/rally-rota-sc-chuva-ditou-as-regras-do-primeiro-dia-do-rali.html



                                                        Rali dos sertões



          Ao voltar para casa, vindo da baixada santista um dia desses, um passeio  normal,quase se transformou em  pesadelo. Senti-me num verdadeiro rali.

           Faço essa rota já há algum tempo, e em dias normais, limpo e claro não preciso mais acionar o GPS .  Escolho a rota que passa pelo sul de Minas, preferência esta, devido a algumas recompensas :  menos pedágios e cidades próximas ( gosto de parar para comprar “trecos” ou algum “trem” como diz o mineiro).

          Às dez horas em ponto entramos no carro, eu e Claudia. Era domingo depois do carnaval. Cálculo para almoçarmos em Caçapava,  num restaurante com cardápio variado.
Na garagem, enquanto eu escolhia a trilha sonora no spotify, minha mulher dava as últimas recomendações de praxe ao nosso filho. Despedimos-nos.

          Venho pela orla, para dá aquela ultima olhadela e ver o mar azul formar com o céu a  linha perfeita do horizonte. Alguns navios interceptam a linha. Na calçada pessoas exercitavam-se   enquanto  sobre os coqueiros  duas gaivotas matreiras se equilibravam quase paradas ao vento. Isso é que é vida, pensei. A das gaivotas.

          Saio da cidade e pego a Rodovia dos Imigrantes. No topo de um morro, no meio da mata, um restinho da atlântica, plantada uma favela. Quantas desigualdades. Ali atrás edifícios faustosos quase tocam os céus. Debaixo de um viaduto sobre o manguezal  casinhas de madeira se equilibram em pernas de pau pareceu amontoados de aranhas caranguejeiras.  A vida ali deve ser um inferno.

          São Bernardo do campo. Lembro do ex- presidente Lula. Agora julgado e condenado por que lutou a vida inteira contra os ricos. Os poderosos. Desde o início de sua vida. Aqui nos sindicatos. Essa é uma luta insana. Você pode até vencer algumas batalhas, mas a guerra  eles vencem. É como nadar contra a correnteza. Você pode até avançar alguns metros, mas a força não pára. Um cochilo ela te leva rio abaixo.

           Entro na Saída  27 e pego  o rodo- anel  e sigo a placa de Mauá até entrar na rodovia Governador Carvalho Pinto. Aqui as margens das pistas o gramado é exuberante.
Itaquaquecetuba.  Vem do (tupi-guarani, takûa(ra)-kysé-tyba) "Taquaquicetuba" que significa "muitas taquaras cortantes". Claudia pede ajuda ao Google.

          -Isso tudo aqui era dos índios. Olho em volta. -Aí vieram os brancos, os bandeirantes, e os dizimaram e...

          -Já vem você com esse discurso esquerdista! Pó parar!
-Verdade! Eu digo. Qualquer coisa agora é esquerda comunista ou direita fascista! Já deu.

          -Ô nome difícil sô” digo,imitando os mineiros para mudar de assunto.

          Depois São José dos campos. O brasileiro é um povo religioso.  A maioria é de católicos, mas nos últimos tempos vem crescendo bastante os protestantes.

          -Deve ser por que...

          -Pelo amor de Deus! Religião não se discute! Concentra na estrada!

          Vou lendo placas, sou leitor assíduo, Mac Donald, Havan, Burgue King, tudo isso passa ao largo, as margens, fomos colonizados pelos Portugueses, mas, explorados pelos Americanos. Vejo a estátua da liberdade azul.  Penso discorrer sobre capitalismo. Só penso.Na placa, pastel do Maluf. “Já pensou se ele fizer no pastel o que fez na vida pública!”. Rio sozinho.

          Pindamonhangaba. Pergunto a Claudia que está com o celular na mão qual o significado.  Parece que é anzol ou referente ao rio Paraíba do Sul que na região é bastante sinuoso e faz curvas que lembram um anzol. Viva o Google, penso.

          Pego o retorno para Caçapava. Meio dia. A fome apertou.

          -Picanha senhor! Fui acordado pelo garçom.
          -Sim!
          -Alho e óleo?
          -Por favor!
          -Mais alguma coisa?
          -Coraçãozinho!

         Ele empurra com a faca. Conto dez. “Dizem que os sentimentos vem do coração mas não é verdade, vem do cérebro”.

          -Obrigado!

          Foi um almoço rápido. Queríamos passar em Aparecida. Compramos umas fitinhas multicores e uma imagem de Aparecida a pedido. “Quero uma com o manto preto com detalhes dourados! Acho lindo!”

          Guaratinguetá. Sem esperar Claudia passou o bizu: De origem tupi, a palavra "Guaratinguetá" significa"muitas garças", pela junção de gûyrátinga (garça: literalmente, "pássaro branco", pela junção de gûyrá, pássaro e tinga, branco) e etá (muitos). Recebeu esse nome pela grande quantidade de garças existente nos domínios do município.

          Volvi meus olhos ao céu. Não vi uma sequer. Gosto de graça das garças. Rio da frase. Garça tem graça nas suas longas pernas. São desengonçadas.

          Lorena. Nome bonito. Se eu tivesse uma filha poderia chamá-la Lorena. Passa-me paz, sei lá. Deus me deu dois filhos maravilhosos.

          E a viagem segue nos conformes até a entrada para Cruzeiro, uma cidade de são Paulo que parece que só tem um edifício e ali as margens da pista. De cor azul. Bem em cima  vejo uma enorme nuvem negra que escurecia toda a serra da Mantiqueira. A serra da Mantiqueira é uma cadeia montanhosa que se estende por três estados do Brasil: São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro. A serra tem uma formação geológica datada da era arqueana que compreende um maciço rochoso que possui grande área de terras altas, entre mil e quase três mil metros de altitude. Viajar é cultura.

          Eu resmungo algo, e Claudia tira os olhos do zap zap questionando-me com o olhar.
          Explico:

           -Ali ó aquelas nuvens que parecem pesadas pode ser uma tempestade que vai cair lá para o lado de minas.

          Ela observou demorada. Olhou no celular.

          -Deixa-me pesquisar. É... Aquela nuvem parece com essa da foto. Tenta me mostrar. Eu olho rápido.
          "O nome cumulunimbus é a combinação das palavras em latim cumulus, que quer dizer amontoado, e de nimbus, que quer dizer chuva.

          Apontei para frente.

          -Temos outra alternativa: Podemos ao invés de ir por aqui, ir direto pela Dutra, passando por Três rios e fugimos talvez dessa chuva, o que é que você acha?

          Eu tenho comigo que toda Cláudia é igual a revista Claudia, adora dá conselhos. Mas essa vez ela disse: “Faça o que achar melhor”. “Lavou as mãos ó!”.

          Eu mal acostumado virei à direita e seguimos de encontro à nuvem negra.
Assim que avistamos a placa bem vindo a Pouso Alto, região das águas. Realmente.  Desceu o maior pé d’água.Um verdadeiro dilúvio.

          Fiz o que pede o manual. Diminui a velocidade, coloquei o ar no desembaçador, liguei o pisca alerta e vim navegando em mares profundos. Tive vontade de parar algumas vezes, pois as gotas da chuva eram tão grandes que mesmo o limpador estando na velocidade máxima não dava conta e a visibilidade caia assustadoramente. E mais. Sou míope. Na sala de aula, a professora vendo a dificuldade para eu lê, espremia os olhos cada vez mais, ela vendo aquilo vaticinou:

-Ai coitado, vai ter que usar óculos a vida toda!
Pareceu que ela falara de uma doença contagiosa. Eu detestava óculos,e foi um martírio acostumar-se. Nos primeiros dias doía o dorso das orelhas, e o osso do nariz. Em compensação tudo ficou mais colorido e límpido. Assim foi mais fácil aguentar as gozações, os apelidos "fundo de garrafa", quatro olhos", "ceguinho". Mas o pior foi para dar o primeiro beijo. A garota também usava e constantemente trombávamos no ato. Mais acostumamos. Ela tombava um pouco a cabeça de lado e eu também e nossos lábios se encontravam, rapidamente. Hoje em dia é uma peça indispensável, é a primeira coisa que pego ao acordar e a última que largo ao dormir. Curtir quando os Paralamas fizeram a música "óculos" as garotas deixaram o preconceito e agora usar óculos até, dizem dá um certo ar de "inteligencia". Agora tem a cirurgia, mas refutei. O óculos faz parte de mim.

Passei vária cidades sem perceber.

Lá fora o tempo estava cinza. Comecei senti frio, mas não podia desligar o ar. Fiquei até com pena do carro da frente, pois, os vidros parecia espelho de sauna a vapor.

          Mais um pouco e a chuva abrandou e foi assim que passei Pouso Alto,Caxambu,Baependi e quando estava aproximando da entrada de Aiuruoca, penso em Isis Valverde sempre, naquela propaganda das sandálias havaianas.  Ela é de Aiuruoca.  Significa casa de papagaio. Dou seta para entrar.
Claudia tira os olhos do celular.

          -Uai! Tá fazendo o que?

          -Vou parar aqui e esperar a chuva passar!

         “Quem sabe que não vejo a Ísis Valverde em alguma cachoeira ,e de  biquíni calçada com uma havaiana branca?”.  E ao ver-me dissesse:

          -Uai! Como você chegou até aqui com esse dilúvio?

          -É exatamente nos dilúvios que encontramos as sereias, eu diria.

          A pele dela toda pontilhada de arrepios.
Eu desconverso.

          -E essa chuva hem!

Ela diz com malicia.

          -Foi para a gente se encontrar!

          Eu tiro os óculos e fixo nos seus. Percebo que fiz algo que não costume fazer em público. Tirar os óculos para mim é se desnudar. Tento colocar outra vez. Ela segura minha mão.

          -Não espera! Teus olhos assim na chuva brilham como os olhos de um lobo! 


          Esse pensamento surreal veio como um raio e caiu bem perto de nós passageiros da estrada  seguido de uma rajada de trovão. Olhei o retrovisor. Agora éramos mais de vinte faróis piscando numa carreata.  Descobrimos tarde que o relógio do tempo era real, tinha sido atrasada uma hora. O horário de verão tinha acabado. Escureceu.

Nisso a chuva parou por milagre ou pirraça.

          -Toca para casa, disse Claudia. Eu sei bem o que você quer aqui! Parece um adolescente.

          Aiuruoca ficou para trás. E Ísis Valverde não apareceu. E minha adolescência vai longe.

          Diminuo a velocidade do limpador e troco a música. Desliguei o pisca. Foi quando em Bom Jardim de Minas o criador resolveu abrir todas as torneiras novamente com gosto e veio junto um pé de vento feroz. Parecia uma pena pelos pensamentos pecaminosos.

          Entro no manual novamente: Pisca ligado, velocidade reduzida, distancia entre os carros, desembaçador e limpador na velocidade máxima. Mas a coisa havia piorado. Era noite, os carros mais afoitos tinham sumidos na frente e eu agora estava sozinho na pista me senti um vaga-lume na noite fria.  Prossegui viagem. Não podia parar. Nessa hora é melhor seguir devagar e sempre. Ajeitei o os óculos sobre o nariz e aproximei mais do para-brisa. O acostamento estreito, parar era um perigo. Assim aos trancos e barrancos avistamos as luzes de Juiz de fora.

          -Eu vou ligar para minha irmã, aviso que vamos dormir aqui, é mais seguro. Disse Claudia.
Ninguém atendeu. “Ora, as pessoas aqui tem o que fazer aos domingo em vez de ficar em casa, penso”.
Ligou para um irmão em Ubá.
          -Aí está chovendo?

          -Nem uma gota, disse ele.

          -Nnão? Aqui está um dilúvio!

          -Prá você vê, dissera ele.Ele gosta de falar mal de tudo. Aqui o pessoal não reza por isso não chove. “Eu aqui rezando para não chover”, penso.
Desligou.

          -Meu irmão falou que em Ubá não chove nem a pau, disse Claudia sorrindo.

          Decidimos seguir em frente. E honestamente prefiro chegar logo em casa depois de uma viagem.

           Até Cel. Pacheco  foi tranqüilo. De Cel. Pacheco a Tabuleiro choveu bem, mas a pista bem marcada e sinalizada  ajudou bastante.

          -Bendito o olho de gato, digo. É de grande ajuda na escuridão.

           Rio Pomba a Ubá é que foram elas. Bateu o desespero. A chuva aumentou assustadoramente, e a pista parecia um quadro negro, não tem faixa, as placas ficam no meio da vegetação e os quebra -molas não são pintados, “Para onde vão os impostos que pagamos quase grito quando passo por cima de um que nos jogou quase ao teto. Veja isso! As estradas sem acostamento, sem capina, as pistas não tem caimento, sem caneletas, riachos atravessam a  pista tornando-as perigosa com risco de aquaplanagem , atravessa todo tipo de entulho,barro, pedras, bambu, arbustos  e por incrível que pareça arranjei humor para lembrar  da piada do caipira e do engenheiro:

É assim:

O caipira sentado no barranco, pitando, apreciando a paisagem, quando para um carro e descem dois sujeitos com um monte de tralhas. O caipira observando os dois, mede dali torna a conferir, até que o caipira não resiste e pergunta:
- Me adescurpe a intromissão mas o que é que oceis tão fazendo cum estes trecos tudo ai?
- É que nos somos engenheiros e estamos fazendo as medições de uma estrada!
- Ah bão, é que aqui nóis num faiz estrada desse jeito não! O engenheiro em tom desafiador pergunta:
- Ah, não? Então como é que vocês fazem estradas por aqui?
- Ah bão, a gente sorta um burro pelo caminho e vamos seguindo o bicho, por aonde o bicho passa é o meio caminho para se faze a istrada. O engenheiro , pergunta:
- E se você não tiver um burro para fazer a sua estrada?
- Bão, neste caso a gente chama um engenheiro.

Carros cruzam  piscando loucamente os faróis . Diminuo a marcha.

          -Ai meu Deus! Espero que não seja acidente! Diz Claudia.
Redobro a atenção.
          -Lá na frente, cuidado, uma árvore caída! Grita Claudia. Só dá tempo de eu passar por baixo desviando pela direita. Ela não soltava o rosário recém comprado em Aparecida. ”Será que vale, questiono, não foi bento!”.

          Na frente a giro flex da polícia e dos bombeiros joga raio de luz vermelho em todas as direções Também nos eucaliptos em volta. Um carro branco que tinha me ultrapassado uma meia hora atrás tinha derrapado e batido no barranco. Eu tinha até xingado ele, pois na ultrapassagem  jogou muita água no meu pára-brisa. Apressadinho de uma figa, tinha gritado.Agora deu pena. Espero que ninguém tenha se ferido. Passo devagar observando. Tem uma maca na chuva. Os bombeiros prestam atendimento. Um policial sinaliza com a lanterna, para que ninguém pare.  Seguimos.

          Quando avistamos as luzes bruxuleantes do Bairro São Sebastião,  suspiramos aliviados. “Vixe como tem Santo!”.  
Ledo engano.
 Não era o fim.
         "Parece que os governantes fazem especialização com os governos anteriores. Sem exceção todos aprendem direitinho como tapar buracos.  Não deve ser asfalto. Deve ser tinta preta e areia que solta na primeira chuva e ele, o buraco aparece novamente.
São todos de nós conhecidos. Tem um ali perto da pracinha do lado da escola em frente uma padaria indo para o Caxangá, apelidei –o  de bombinha “cabeça de negro” Depois que você passa em cima é que sente o estrondo.
Ali na rua da geladeira tem outro. Todo o dia eu o cumprimento. Na beira rio outro, perto da ponte. Esse passo no meio com os pneus. Tem um na esquina que exige um pouco mais de perícia.Você finge que vai subir na sarjeta e dá um golpe para dentro.
Em frente ao posto policial, na gare do trem, dois que vivem cheio de água. Esses são bons para encharcar os pedestres e passageiros que ali esperam o coletivo.

          Já quem faz o quebra molas, esses são do mau, penso.  Sou a favor até, desde que bem sinalizados. Mas os daqui ninguém vê. São fantasmas. E não colocam placas. Só sentimos depois do baque.

          Dessa aventura o resultado foi a troca de dois amortecedores, duas lâmpadas queimadas e o escapamento estourado.
          Meu desejo era terminar essa crônica ou sei lá, relato de viagem, vai, com vários palavrões e pessimismo com toda a situação, mas lembrei de minha mãe, que dizia que tudo tem um lado positivo.
          Assim fui Tirando a bagagem toda amarfanhada. Na chuva mesmo. O portão cismou em não abrir.  Desconfiava que no porta mala tivesse mais surpresa e vi as roupas encharcadas, tralhas quebradas, o violão tinha perdido a “mizona” arrebentada, um vidro de molho de pimenta malagueta esparramado  junto com o cheiro da cachaça derramada. Um verdadeiro samba do crioulo doido.

          Quando ia soltar um palavrão escolhido a dedo bem impudico, vil, sórdido, vi  lá no cantinho enrolada  numa folha de jornal amassado, a santinha, comprada a pedido,intacta e vestida com seu manto negro e dourado, aí desabafei.

          -Temos que lutar pelos nossos direitos sim! Nós, simples mortais pagamos os impostos em dia.           
          -O que fazem com os impostos? Enchem o bolso.
          
          -E que podemos discutir religião sim!
          -Discutir futebol sim!
           Temos que falar sobre sexo sim!
          Temos que discutir política sim!
         -Mas tudo civilizadamente, com educação e respeito pelo outro.
Só assim, podemos melhorar o lugar que vivemos.

          E que Deus seja louvado.



sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

Convicções


                                                               

                                                         

                                                  Convicções 





A respeito da condenação do Ex Presidente Luiz Inácio da Silva-Lula muitos falam e poucos dizem. Uma das principais e cínica é a que fez o Presidente do golpe Sr Michel Temer que diz: “Convenhamos se fosse derrotado politicamente, é melhor do que ser derrotado(na justiça) porque foi vitimizado.
Primeiro: Ninguém é derrotado pela justiça e sim feito justiça. E nesse caso em particular não houve, pois faltaram provas. Não estão nos autos. A condenação foi feita com base em convicções.
 Acreditar na palavra de delatores que querem diminuir suas penas a todo custo é uma temeridade. Pelo que eu sei delação não é prova, mas um meio para consegui-la.  Julgar por convicções pior. Segundo o escritor Joseph Conrad, autor do romance Vitória, "nossas convicções nada mais são do que servas de nossas paixões".
Isso mesmo:  Foi uma vítima da justiça brasileira, que há séculos continua a mesma. A balança de dois pesos e duas medidas. Veja parte do poema de Luis gama que diz: “ Não tolero o magistrado, que do brio descuidado,vende a lei, trai a justiça,- faz a todos injustiça- Com rigor deprime o pobre presta abrigo ao rico, ao nobre, e só acha horrendo crime no mendigo, que deprime.” Isso é corriqueiro.
E basta recordar os áudios vazados para a imprensa que transcrevo aqui sem aumentar vírgula, em linhas gerais o enredo do golpe, essa história medonha que se passou aqui na república das bananas.
Vejamos:
Não é ficção preste atenção: Os diálogos  estão em negrito.
Machado-(Se encontra “preso” em sua mansão na praia com todas as regalias).
-Rapaz, a solução mais fácil era botar o Michel(temer).
Jucá-(hoje é ministro )
-Só o Renan(Calheiro) que está contra essa porra.
Machado-É um acordo. Botar o Michel. Num grande acordo nacional.
Fato: Passou o impeachment da Presidenta Dilma na câmara presidida por Cunha(hoje está preso na papuda). Passou pelo senado presidida por Renan Calheiro(responde por vários crimes e continua presidente do senado, aliás peitou o supremo).
Jucá:
-Com o supremo, com tudo.
Aprovou o impeachment  mesmo com toda evidencia de um golpe.
Machado-
-Com tudo. Aí parava tudo.
Mais tarde no congresso tentaram mudar as leis de delação em benefício próprio.
Jucá-
É. Delimitava onde está. Pronto.
Trocaram o chefe da polícia federal.

 Temer presidente flagrado em conversa escusa onde ele termina o diálogo assim:
-É. Temos que manter isso aí, viu?
   E outras cenas absurdas como deputado correndo com mala cheia de dinheiro.
Apartamento abarrotado de grana.
Chefe que vem a pública dizer peremptoriamente:
“Uma mala não é prova de nada!”.
-Como assim! Como assim!  Puta que La vai pampas!
Que justiça é essa que tira do poder uma presidenta que teve maioria absoluta nas urnas, sem provas concretas alegando pedaladas, condena um ex presidente, um dos melhores que o país já teve, por convicções?
Que país é esse? É o que queremos?
Prá mim não.
 Não coaduna com uma república séria nem com  a democracia tão aclamada nesses últimos tempos.
Numa verdadeira democracia a lei máxima é sua constituição e nela diz:  Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza...
Só tem um jeito de se fazer justiça a tempo. O TSE validar a candidatura de Lula aí sim, o pleito seria democrático e a vontade do povo soberana, seja qual for o resultado, sem golpe e sem trapaças.
 Deixem o povo escolher!

Como diz o ditado: “A voz do povo é a voz de Deus”.

sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

Indicação

                                            Indicação







Estava em casa procurando o que fazer e comecei a zapear o netflix atrás de um filme que me interessasse.
Foi quando me deparei com um de nome estranho.  “Já não me sinto em casa nesse mundo”. Título longo. Chamou minha atenção.
Direção de Macon Blair. “Nunca ouvi falar”.  Bom! Pensei :  “vou dá um crédito de confiança. Se não me agradar os quinze minutos iniciais, paro de ver e vou fazer outra coisa”. Simples assim. Escureci o ambiente e dei play.
Confidenciando, sou um cinéfilo inveterado, daqueles que mesmo o filme sendo uma bosta, vejo até o fim, só para exclamar:  “ufa!, até que enfim terminou e não entendi o que o diretor quis dizer”. Verdade.
Uma mulher de seus trinta anos mais ou menos sai da varanda, silhueta um pouco cheiinha, “suculenta” como diz um sobrinho meu talvez por que ele vê a mulher como um X-burguer,   olha para o céu escuro.  Uma música de fundo. Opa! Penso. Temos música legal. Eu chego a sentir o que ela sente. Estou sendo observada. O seus olhos nos diz isso. E quem embaixo desse céu de meu Deus, que nunca imaginou estar sendo observado?  
 Por quem? Extraterrestres, pensei.  Isso aguçou sobremaneira  meu talento nato de imaginar coisas. Outro ET?   Era muita irresponsabilidade do diretor trazer novamente esse tema.
Amanhece e ela descobre que alguém lhe havia visitado na calada da noite e que furtara seu notebook e um talher de prata, herança de sua avó. Isso talvez seja um signo criado pelo diretor para trazer o passado para o presente.  Tem  carro antigo e tunado.
Aí é apresentado o perfil psicológico da personagem que é de uma enfermeira que se auto medica, estabanada, solitária que chega ao cúmulo de não xingar alguém que tenha o desprazer de contar-lhe o final do livro que  está lendo.  Mas são esses defeitos que nos aproxima e ficamos torcendo para que tudo dê certo. Heroína de carne e osso.
 E ela ainda faz a pergunta que todos um dia fizemos ou faremos: “O que viemos fazer aqui no mundo?”.
E o filme não explica claro.
Chamou minha atenção também à maneira como são os personagens.  Estranhos e diabólicos. Uns tão prováveis que parecem saídos da vizinhança e outros tão inverossímeis, frios e calculistas como saídos do game Gta da Rockstar. Só quem é game maníaco vai entender. Matam sem motivo numa cidade cheia de bandidos. Mas isso é outra história.
A partir daí o enredo nos vai levando num emaranhado de situações hilárias, na medida certa de humor, suspense e piadas cretinas. 
Ela vai atrás de seus pertences ao sentir que o estado, representado pela polícia pouco faz.  Se sente impotente
Sentimos que é um filme policial, mas não espere ação frenética tipo duro de matar nem grandes tiroteios. Tem isso também.  Mas fala principalmente da solidão, da morte, da falta de convivência e de como somos provisórios.
Isso regrado por uma ótima trilha sonora que vai desde  o  rock and roll e country.
Não conto mais.  Perde a graça.
Não é primoroso, mas, quando subia as letrinhas esbocei um riso, tipo ufa! Foi bacana. E fiquei ouvindo a musica até o the end.
Indico.


segunda-feira, 23 de outubro de 2017

O Anúncio

                                       

                                                   O anúncio








          Vende-se romance escrito no século passado. O mesmo abarrotado de fatos e mitos relevantes sobre a humanidade: paixões, intrigas, guerras e principalmente desamores.
Odiar é nossa especialidade. Li e gostei muito.

           O romance em si é sobre a vida de personagens que trombamos nas esquinas do dia a dia, das vizinhanças e que acaso passaria despercebidos se não fosse o olhar atento do poeta que anotou e cantou suas poesias e o fixou em folhas de pergaminho diariamente.

           Inédito e único. Pronto para ser publicado. A não ser que o felizardo comprador queira mudar personagens e título. O título está bem ao gosto do público atual.  “ A pobre vida rica do Sr. Y”.

 Saliento que em tempos normais eu mesmo a publicaria. Mas estamos passando tempos difíceis onde a direita escoiceia e a esquerda rumina. E como a ideia da obra é instigante e alem do seu tempo, temo ser perseguido pelos fins do meu dia. 
Então o comprador terá de ter duas virtudes essenciais: Coragem e poder.

Além disso, sou avesso a fama, por mim o jogaria no fundo de uma gaveta da cômoda velha que ocupa o lado esquerdo do meu quarto, bem perto da janela onde todo dia vejo o sol morrer.  Mas eu acho um descalabro deixar a arte assim presa, arte tem que ser livre como o vento, que às vezes sopra mansinho e ameno outras vezes vem como um furacão levantando o mofo e a poeira escondidos.

 Por isso estou pondo a venda essa relíquia citado em várias  obras como uma lenda. Os títulos foram diversos, por exemplo: A relíquia, O grande romance, O abutre e tantos outros  se pesquisarem com afinco as escritas do tempo de Hamurabi lll na  coleção de Alalaque ou nas literaturas indiana, chechena  e russa.

O único ser vivo que folheou essa escritura foi a senhora  X  que era esposa do senhor Y. E Se ela foi personagem, penso que sua vida foi um escândalo feliz.  
 Dizem que ao ler o primeiro parágrafo ela olhou fixamente para um canto, deu um gemido e em seguida lágrimas transbordaram em borbotões pela face pálida.  Depois leu dia após dia até o ponto final, quando por fim o escritor deu o trabalho por terminado. Isso levou justos oitenta e seis mil e quatrocentas  horas, que foram marcadas na lateral de cada página com um traço de sangue . Quando chegou ao fim, ela olhou pela janela, e viu que já entrava o outono o cheiro da primavera já se esvaíra e o vento sacudia  a copa das árvores  as folhas caindo murchas pelo chão. 

Quanto tempo se passou  ali, perguntou-se. Não houve resposta. Assim ficou mais dez  anos em transe pensando na morte da bezerra.   Nesse dia fazia um calor descomunal  ventava muito. Seus gemidos foram abafados pelo barulho das cigarras de outono. Desconfio que romance tocou-lhe  n´alma.
Penso até em suas digressões:

“Como pode alguém se perder assim na vida sem uma obra construída, cega as coisas que aconteceram ao redor, onde andava o grande amor, os filhos os netos,  as guerra? 
O  que fazer com essa dor, essa solidão que a devorava e que fazia olhar insistentemente por uma janela talvez a ver a luz surgindo todo dia no horizonte?”.

Não tenho certeza se os lamentos de X , foram esses,  se mesmo as lágrimas enfim, foram provocados pelo romance. Sei que o primeiro parágrafo o mestre usou a técnica que para mim soa perfeito, a métrica, o ritmo e cita algo vago como a eternidade, o amor, esse tipo de coisa que foge entre nossos dedos, mas, que é forte chamariz dos que virão, e sem ao menos avisar, preparar, escreve o último parágrafo, como um êxtase e  nos planta um soco no estômago  e quando a dor vem e ficamos tontos nos fala de coisas reais e indescritíveis como a morte,  para no parágrafo seguinte falar de sonhos, sonhos e sonhos.  Ah como sonhamos! A vida só vale pelos sonhos que tivemos. Os realizados ou não, não importa. O que importa  a estrada.

Se tirarmos os sonhos de nossas vidas o que restaria?

Somado isso ele nos leva pela mão com segurança e até certa volúpia e desdém nós, os pobres e comandados leitores. Somos uma corja de apaixonados. Ovelhas nas mãos de lobos. O uivo do poeta nos chama de longe, como um encanto. E caímos em suas garras. Gostamos até de sermos devorados, estrangulado, até a última gota de sangue.

Há de se imaginar também que tais lágrimas poderiam ser devido ao açoite do vento na vidraça ou a imagem das folhas caindo murchas ao chão ou o ciclos interminável da natureza, inverno, outono, primavera e verão, dia e noite, noite e dia,  ou pelos cabelos brancos em desalinhos do velho escritor sentado de costas  trabalhando arduamente em vão como as estrelas que não aparecem de dia,  abafadas pela luz do sol   e ele no limbo a espera de uma rima que não vinha ou pela crise existencial, esse lobo que uiva sem parar nas noites de lua cheia ou o trote do tempo que lá vai rápido como um potro negro.

Isso tudo são algumas imagens fúteis que ela nos traz com seu olhar condescendente. O importante está na alma. As imagens são construídas pela alma. Quem dá cor à cena é o sentimento. A felicidade é colorida e as imagens são grandes e próximas. A tristeza é cinza. Sentimos tão pequenos quando cinza.
Encontrei esse calhamaço de papel numa viagem ao Egito. Numa pirâmide ainda desconhecida pelo grande público. Trouxe escondido numa mochila correndo todos os riscos. O fiscal da alfândega olhou para mim e falou algo, eu fiquei em silêncio e parado como um soldado em posição de sentido. Pois sei que a fala nos corrompe e a escrita nos entrega.

Assim foi.

Fiquei um ano sem saber o que fazer com aquela obra original.
Escrevo algumas crônicas em jornais e tenho o meu blog na internet, mas juro por deus, jamais, digo jamais escreveria uma obra dessas. E as também hoje  pessoas preferem as redes sociais às convivências reais.  É fato. Tudo parece está dominado. Na rua não se cumprimentam. Andam como robôs ouvindo coisas nos fones de ouvidos. E o tempo cavalga em galope rápido e constante como um jovem potro negro.
E arte meus amigos, ela olha-se para dentro, e busca no seu interior sua própria mensagem. Se uma criança sorrir é por que é o que ela tem de expor. Se alguém chora é que foram tocadas em suas feriadas. Arte é espelho que reflete sua alma.
Assim, em virtude disso exposto, ofereço a quem der mais, as mil e uma laudas escritas por grande mestre,  vaticinando o futuro, que essa obra, sem sombra de dúvidas, será o maior  sucesso de público.

Ofereço total segredo para que o comprador possa mudar personagens, título e assinar da forma que quiser como sendo sua a obra e usufruir os louros da fama.
Tenho a absoluta certeza que esses personagens  ganharão o mundo. E eles que em suas vidas normais não foram citados em colunas sociais( notas que só alcança o ego das bestas) em conhecendo-se suas desventuras, amores, paixões e morte, serão  de grande relevância na história.

E o dono do título com certeza  o levará ao tão cobiçado premio Nobel de literatura, ficando ainda com a parte que a maioria deseja(  improfícuo em minha opinião ), terá direito ao  fardão na academia, o chá das tardes com os iguais, notas em jornais, mulheres fáceis e dinheiro.

Podem até acharem que é utopia vendê-la dessa forma, uma resma escrita à mão.  Escrito muitas vezes á luz de velas como já disse o escritor, “ouvindo estrondos de bombas caindo ao redor quando participei da primeira guerra mundial como soldado raso,  guerras que eu não arranjei, mas combati com afinco e escrevi algumas linhas dessas com o coração disparado  à espera da  hora correta de subir as trincheiras e estripar o inimigo. Não é glória estripar alguém como  a um porco. Mas fazemos assim mesmo,com sangue frio.

Outras vezes escrevi no lombo de um camelo em caravanas pelo deserto do Saara. Participei até de uma viajem com  “El ingenioso hidalgo don Quijote de la Mancha” e ouvi de sua boca, “Senhor, uma andorinha só não faz verão.” Por um mês andei assim o seguindo em suas batalhas. Por fim quando cansei de sonhar ele me falou com sua figura triste: “Cada um é como Deus o fez e ainda pior muitas vezes”.

A partir desse ponto seguimos calados uns duzentos quilômetros. Foi quando ele parou no cimo de um monte e soltou essa: “Esse meu mestre, por mil sinais, foi visto como um lunático, e também eu não fiquei para trás, pois sou mais pateta que ele, já que o sigo e o sirvo, se é verdadeiro o refrão que diz: ‘diga-me com quem anda e te direi quem és’ e o outro de ‘não com quem nasce, mas com quem passa’.” 

Eu já não pensava direito, via imagens nas planícies. Então para não enlouquecer decidi seguir sozinho. Ele ainda disse:  “A liberdade, Sancho, é um dos mais preciosos dons que os homens receberam dos céus. Com ela não podem igualar-se os tesouros que a terra encerra nem que o mar cobre; pela liberdade, assim como pela honra, se pode e deve aventurar a vida, e, pelo contrário, o cativeiro é o maior mal que pôde vir aos homens.”  Sancho ouvia tudo calado.

A imagem deles que ficou comigo foi de dois pobres diabos ricos em sonhos. Nunca mais nos cruzamos novamente.
 Outras vezes escrevi na cabine de um navio, singrando mares com um capitão louco para matar uma baleia. Quase morremos sendo comido por canibais.
O Conto de Genji  é considerado o primeiro romance literário do mundo, de autoria atribuída a fidalga Murasaki Shikibu, escrito no começo do século XI, durante o Período Heian da história do Japão. Mas com essa descoberta tudo cairá por terra. E isso, só isso trará muitas confusões, abalará estruturas, egos e etc.

Faço tais citações para saberem o quanto é grandiosa a obra.

Para que vocês fiquem certo que esse negócio é certo pois nessas  páginas encontrarão sangue, suor e  lágrimas.  São muitas noite solitárias.   E o comprador terá livre arbítrio de colocar os capítulos na maneira que lhe aprouver. Assim ficará livre do ônus da obra. Principalmente das críticas. Terá o nome cantado em canções e operetas. Até Camões, não sei como como, escreveu certas coisas que confrontados hoje, parecerá plágio.
Fernando pessoa, veja bem, na criação de suas personalidades teve com certeza influências.

E pop fim o comprador fundamentalmente não terá obrigação nenhuma com a arte, pois será mera mercadoria, - um produto comercial, -um escambo e assim como disse o escritor no prefácio, “Cedo-vos o alimento da alma, cedes-me o alimento do corpo.

E ficamos quites.

Está aberto o leilão.


terça-feira, 12 de setembro de 2017

Bruxas, fadas e outros demônios

                                   Bruxas, fadas e outros demônios



         


          “Lendo conto de Rubem Alves de título: Bruxas e vassouras, eu perdi o pudor de contar aqui também a minha descoberta sobre elas, as mulheres, bruxas e fadas de minha vida, só agora, após seis décadas, largando o medo de uma praga, um feitiço ou coisa qualquer”.  
           Esse era o início de uma crônica do escritor  Odlarniram Etiel Atsitab, Afegão da província de Sameroc,  ainda pouco lido por aqui,  prolixo,  escreve nas folgas, entre uma explosão  e outra pois seu principal afazer é a montagens de artefatos explosivos para dilacerar seres humanos.
          Na crônica ele fala de seus medos e segundo entrevista dada a um jornal de segunda categoria, disse o repórter na época, que nunca vira alguém tão engajado em seus planos de destruir o mundo.
         Ele conta do medo horrendo que tinha das bruxas na infância, e sua escrita tem um peso enorme quando fala das coisas mais banais, devido talvez ao desapego pela vida, afinal, qualquer hora pode receber uma missão de se infiltrar entre os inimigos e voar junto com a maior quantidade de pessoas em pedaços.

         Sobre as bruxas o caso ocorreu nos idos de mil novecentos e sessenta e quatro mais ou menos segundo texto, ele tinha oito para nove anos, tinha medo de tudo e segunda as próprias palavras  “as bruxas andavam soltas”.
         Além disso, a internet andava somente pelas universidades, a tecnologia capengava e o Google não havia sido criado ainda, fato esse de sua total ignorância. “Eu era tão “cru” disse ele, que achava que o sol girava em torno da terra, que o paraíso estava no céu e o inferno  no fundo da terra, que a mulher era um ser perigosíssimo, que as vacinas vinham para dizimar as crianças,e que vimos trazidos pelas cegonhas. Veja só”.
        Diz também que transcreveu, sem edição alguma, a escritura feita do próprio punho naquela época. Segue dizendo que todos irão notar que é texto sem influência de qualquer natureza, pois até ali só havia lido gibis, “portanto hão de desculpar não pertencer nenhuma categoria ou escola, é texto de iniciação”.  
Feito todos os rapapés vamos aos fatos.


         “Sameroc, província do Afeganistão, 26 de agosto, de 1964. Manhã de segunda feira:

          A casa estava silenciosa e lúgubre. Gosto da palavra lúgubre. Tirei de uma revista de terror.  O desenho mostrava um cemitério esparramado num pequeno morro cheio de cruzinhas de madeira. Todas as vezes que eu sinto solidão lembro-me dessa gravura.  
           Eu acabava de tomar o leite e olhava o resto de Nescau escorrer no fundo do copo esmaltado quando mulheres da vizinhança invadiram a casa pela porta dos fundos, levando toalhas, bacias e colheres enormes, encheram-nas de água e ficaram esperando a fervura. Depois entraram no quarto grande, perto do corredor que ultimamente andava sempre com a porta encostada. Eu sentia que minha mãe escondia algo, mas não sabia o que era.  Vi muitas vezes minha mãe ajoelhada pedindo proteção.
          A casa era uma construção antiga, toda coberta por telhas nuas, o que deixavam passar a luz do sol e as estrelas pelas goteiras abertas.
          Todo esse movimento aguçou a minha curiosidade e assim fingia não ter terminado ainda de beber todo o leite, quando uma delas pegou do copo, lavou-o antes de eu ter degustado o chocolate do fundo e ainda pediu encarecidamente para que eu fosse brincar segundo as palavras dela: “ com os amiguinhos no terreiro”.  Só se fosse os imaginários, pensei, pois eu era de poucos amigos. Já os imaginários pululavam em toda esquina.
           Tentei escapar correndo pelo corredor, mas ela era forte e quase me empurrou para fora, dizendo que ali não era lugar para criança. Tentei usar meus super poderes, mas nessas horas eu ficava lerdo como uma lesma. Aí o que me restou foi pegar minhas bolas de gude e ficar embaixo da mangueira, até tudo terminar, tentando a todo custo acertar os buracos, mas minhas mãos estavam trêmulas.  
          O silencio era quebrado pelo tilintar de panelas e portas rangendo. Portas rangendo e panelas batendo, a noite, o medo é maior.
          Olhei pelas frestas da janela, mas só vi uma nesga de sol que ia até a parede carcomida e fiquei contemplando a dança do pó no facho de luz.
          Voltei aos buracos e acertei da primeira jogada. Foi quando ouvi gritos vindos do quarto e fiquei apavorado. Corri para a janela e subi no muro por cima dos cacos de vidro, onde o gato andava tranqüilo sem se cortar e o que vi deixou-me em pânico.
          A mulher que me empurrou para o terreiro pedia agora quase gritando para que minha mãe fizesse força, como defecasse e ela fez, gemendo alto, sua fronte suava em bicas e segundos depois que para mim demorou uma eternidade, deu um grito medonho. Foi aí que a mulher puxou de uma vez só de entre as suas pernas abertas, um ser enrugado, sujo e feio. 
          Nesse instante eu saltei da janela correndo e só parei ante a fossa cavada no chão com ânsia de vômito. Tinha cortado o dedo e não senti, tenho uma cicatriz que carrego comigo. Dali, escutei comovido o choro de uma criança. 
Só entrei no quarto, chamado pela minha mãe uma eternidade depois. Ela estava pálida, em volta de lençóis brancos, apoiada em dois travesseiros e um leve sorriso no rosto. Uma das mulheres tinha feito um curativo em meu dedo que fiz de tudo para ficar maior e causar impacto. Ninguém notou.
O que me restou foi aproximar-me  no canto da cama desconfiado.
                A bruxa sorria descaradamente e pegou um embrulho pequeno e trouxe bem perto de mim.

          -Sua irmãzinha! Disse comovida.

         Não sei o que me aconteceu. Só sei que algo subiu pelo peito, fechou minha garganta, e caí em prantos. A bruxa ainda falou assim:
          -Ai coitadinho! Está com ciúme!

          Eu tentei esmurrá-la e dar-lhes um bom chute nas canelas, mas ela dava gargalhada.
Pegou do embrulho e colocou novamente no colo de minha mãe. Foi quando ouvi algo sugando os seus seios como tivesse ali um bezerro. Aí foi que eu gritei com ódio. Minha mãe perguntou por que eu chorava tanto e eu respondi debatendo-me no chão e puxando os cabelos e gritando alto:

          -Não estou com ciúme! Estou desesperado porque não me chamaram para ver a cegonha! Porque não me chamaram?
Todos caíram na gargalhada. Eu saí gritando e bati a porta atrás de mim.

          -Bruxas! Bruxas! Bruxas!

“Assim foi a primeira bruxaria que eu vi”.  Escreveu ele com letra de forma.

          Dois anos se passaram. Como os da casa só tinham olhos para o bebê, eu passava a maior parte do tempo no quarto dos fundos, quarto de despejos onde ficavam todas as traquitanas imprestáveis da casa que um dia teve uso e agora estava ali por defeito ou por antiguidade. Tinha de tudo.  Ferro de passar roupas à carvão, uma máquina de costura daquelas movidas a pedaladas, vários dedais, um rádio á válvulas, uma TV preto e branco,  vários discos de vinil, camas desmontadas, bonecas quebradas e livros. Muitos livros. De todos os tipo e grossuras. Romances, contos, científicos.   Tinha um que nessa época era o mais folheado por mim. Era um  atlas a cores de medicina deixado pelo meu tio que foi cortar as pessoas no hospital. Ele era médico.   Minha maior curiosidade nessa época era saber as diferenças entre homem e mulher.  Anotava num caderno de rascunho. As figuras não ajudavam muito. Geralmente eram ossos e órgão separados. Tinha também um esqueleto que ele tinha mandado o coveiro limpar as carnes e músculos e agora ficava ali em pé atrás da porta sorrindo.
         
Um desenho é que mostrou a primeira diferença que eu anotei como “essencial”. O homem tem algo como uma lingüiça e a mulher uma pequena fenda.
Nessa época eu já colecionava gibis. E uma coisa que gostava de fazer era trocá-las.
 Estava eu na casa de um amigo e tinha levado um saco lotado de revistas. Ele espalhara as suas no tapete e eu notei que elas ainda não haviam perdido o cheiro de nova.  O pai dele era dona da única banca de revistas da cidade. Tinha coloridas, preto e branco, encadernações em brochuras, álbuns grossos, todo tipo de papel. Eu estava extasiado. Uma coisa que eu não sabia fazer naquele tempo era fingir e logo que vi uma que era de meu total interesse meus olhos brilharam.
Eu estava folheando uma, lembro bem, era uma brochura, Moby Dick a baleia assassina.
 O tempo na infância são séculos demasiadamente lentos.  Foi o que talvez eu pensasse quando Anita entrou na sala com os longos cabelos em duas tranças amarrada as costas.  Era a irmã de Ronaldo. Seu vestidinho florido assustou-me demasiadamente. Minhas experiências com as mulheres eram por demais receosas.
          -Como você chama? Ela disse.
          -Oldlaniram  eu disse.
          -Ai! Que nome porreta ela gritou, sentando-se no tapete. Eu corei.
Ronaldo empurrou-a para um canto e disse:
         -Fica quieta aí! Não está vendo que estou fazendo negócio?
Engraçado que ele trata a irmã de um jeito particular.
Ela ficou ali observando.
Eu logo vi o interesse dele. As duas revistas de zorro a número 6 e 7. Vi seus olhos não sair da capa.
         -Eu quero esta!   Mostrei a grande baleia.
Anita se intrometeu novamente:
          -Vamos brincar?
Ele a empurrou de novo.
         -Mãinha! Ronaldo está me batendo! Uma voz lá da cozinha gritou:
Parem com isso se não ponho ambos de castigo!

          “Troco as duas aqui do zorro nessa da baleia eu disse”.
         -Vamos brincar? Anita falou novamente.
         -Tá feito ele disse.
        -Nã-nã-nã –nã-nã-nã! Disse Anita balançando a cabeça. Esta aí é minha, painho que trouxe e só troco depois que brincarmos. Ela falou assim mesmo, a conjugação verbal. Elas sabem liderar uma situação.
E aí não teve outro jeito. Brincamos de policia e ladrão, passa anel, dominó, baralho, xadrez, e agora corríamos para os esconderijos eu e ela enquanto Ronaldo contava até trinta.
Corremos quase aos trombos e quando chegava ao vinte e oito eu ainda não tinha escolhido um local quando  ela puxou-me para dentro de um guarda roupa. Bem providencial, pois ouvimos Ronaldo passar por ali correndo.  Ficamos um tempão quase colado a respiração dela soprava meus olhos cegos pela escuridão. Jamais esqueci o cheiro de naftalina.  Ali dentro a escuridão não era total , por um orifício entrava um pouco de luz.  Nós estávamos bem assustados. Eu principalmente. Agora sei por que tive tanto medo na época. Aquela proximidade era alarmante para mim. Foi quando ela pegou minha e colocou sobre seu peito dizendo:
          -Olha como está batendo forte!

Realmente batia igual o coração de um animalzinho assustado. Aí ela fez uma coisa que eu nunca mais esqueci. Chegou mais perto e beijou-me molhando minha boca com sua saliva. Eu não tive dúvidas. Sussurrei no seu ouvido:

         -Bruxinha linda!

Nosso negócio floresceu bastante. Eu te dou essa revista se você me deixar eu vê isso. Ou, se você tocar aqui dou toda minha coleção. Também trocávamos constantemente de revistas. Algumas coisas anotadas.
Mais uma diferença essencial:

  -A mulher aumenta os seios com o passar do tempo, e são macios e fofos e quando tem nenê sai leite por ali.
  -A saliva é gosmenta, mas quando acostumamos vicia.
  -A mulher é algo extraordinário e tem muito mais para se descobrir.
  -Por último e mais importante: Alice não era bruxa!  Pois segundo Rubem Alves em sua crônica, “As Bruxas verdadeiras usavam a vassourinha de pelos macios  para umedecer as mucosas das regiões entre as pernas, genitais. Assim, vinham-lhes deliciosas alucinações e elas voavam, montadas na vassourinha...
  -Alice não tinha vassoura.

Esse comércio durou uns dois anos ainda.  Até ela me dizer chorando um dia que os pais iam mudar para longe, para o sul e queria por que queria entre  juras de amor eterno que usasse minha chave na fechadura. Ela explicou tudo tim- tim -por tim-tim  mas na hora não aconteceu nada.
Quando ela se foi tornei-me um  solitária, vivia enfiado no quarto dos fundos. Por isso eu tinha a pressa de ser gente grande, crescer e viajar pelo mundo. Aí voltou novamente a total imersão nas histórias em quadrinhos.  Horas a fio em companhia de heróis e vilões de toda espécie.
E por falar em vilão, essa tarde eu me senti um, quando passei pela sala, escondendo no meio dos gibis uma revista proibida chamada de "catecismos" de Carlos Zéfiro. Essas revistas vinham do Brasil, cruzava mares e montanhas e chegava em minhas mãos através de moleques de rua.
Tendo uma, eu corria ao quarto e lia deliciando-me com as gravuras.  Um homem abraçado a uma mulher e o texto dizia: “Muito afobado, beijando-me descobriu-me um seio, e suas mãos ansiosas, repuxavam a minha calcinha e seus dedos esfregavam a minha fenda. Eu estava muito nervosa e lhe pedi para deixar-me tirar a roupa. Ele consentiu e dirigi-me ao banheiro”.
Alucinado pela gravura e as frases intensas dita pelos personagens eu estava apalpando a varinha de condão, quando  a terceira bruxa em minha vida apareceu subitamente, parada na soleira da porta do quartinho, com um sorriso no rosto, sem comentar o que eu estava prestes a fazer:
          -Prazer! Eu sou a nova empregada! Já me apresentei a todos na sala só faltava você meu rapazinho! Ela dava a mão para eu pegar. Assustado retirei a mão do calção e apertei a dela timidamente.
Lembro bem desse dia, pois a Rússia tinha acabado de nos atacar com muitos tanques e aviões. Ela disse muito tempo depois que viera com os soldados.
Eu fechei rápida a revista e levantei da cama num pulo.
Minha mãe entrou logo atrás, estava dizendo que agora aquele quartinho seria de Margarida dali por diante e que eu tirasse meus pertences.
Para encurtar a história, depois que Margarida entrou em minha vida conheci à última bruxa da infância.
Um belo dia acordei com ela em frente ao espelho e comprovei que mulher, especialmente as russas, são bruxas e fadas.
Bruxa, pois levam uma vassoura de pelos macios no meio das pernas e quando as usa voam alto no firmamento.  E Fadas, pois quando tem uma vara de condão nas mãos fazem mágicas miraculosas.

         Enceto retirado do caderno “ultra secreto” de Odlarniram Etiel Atsitab, o pequeno Afegão.