sábado, 28 de julho de 2012

O dia em que quase virei político







As semanas que antecedem uma eleição são assim mesmo. Aparecem candidatos coloridos, arrogantes, humildes, ricos, pobres, tristes alegres, astutos, broncos, inteligentes, verdes, vermelhos e por aí vai.
-Ufa! Foi a primeira vez que escrevi tantos adjetivos juntos, sem, no entanto, acho eu,  merecer alguma crítica.

 Lição  número um que vemos nalgum manual de escritor se por acaso existisse um. Escritor é bicho difícil. Verdade. Diz assim: Não use o adjetivo a não ser que seja para mostrar ou esconder o personagem. Impressionante.
Não desligo a televisão. Fico observando os tipos. Uma verdadeira fauna.

Lembrei-me de um dia que meu pai me levou para escolher um pássaro como meu primeiro animal de estimação.
Cheguei à feira, pois lá no interior da Paraíba é assim. Mil gaiolas, pequenas, graúdas, de arame, de palito, com duas janelas, com poleiros  e sem.

Assustei com tanta possibilidade. Mesmo eu criado no mato, acostumado em pegar passarinho no ninho. Criava desde filhote até adulto. Todos ganhavam nome mesmo. De gente sim. E aí viravam membro da família.

Por isso falo que seria o primeiro sim, pois não se contam aqueles que vivem como gente, tendo sua própria vida, seu canto, e quando morria tinha o velório e enterro como mandava o figurino. Lembro-me com saudade da gata Mimi.

Ela era um ser da família. Mais até, pois era a única a sentar-se na cadeira de balanço de papai. Mesmo sabendo que poderia acordar assustada com um grito. Era sempre ás seis quando tocava a sirene do DNOCS. Tinha até uma brincadeira com essa sigla. Falávamos: Deus não olha os cossacos sofrerem.

Continuando:
Nós mesmos, os filhos, se por acaso, sentados, ao toque da sirene levantávamos sem demora, para que o travesseiro esfriasse e ele não falasse assim:

-Diacho! Quem sentou aqui com bunda tão quente? Não queríamos ter a bunda quente.

Mimi não. Ficava ali balançando o rabo e de vez em quando abria os olhinhos e miava como se sonhasse. Quando a porta abria saltava de um pulo e vinha esfregar-se em nossas canelas. Uma vez. Duas.  E voltava olhos fechados alisando o pelo  com prazer.

Depois ia para baixo da mesa onde estava a tigela com seu leite. Dava umas lambidas e pulava a janela  para a vida do quintal. Uma vida imensa. Era lá toda sua vida.  Por baixo das telhas, do pé de goiaba, do coqueiro que tinha rabiscado em seu tronco, nomes, segredos nossos, que ela ia caçar os seus ratos.

Nesse ínterim papai vinha do banho, cheirando a sabonete de coco, as chinelas batendo no cimento liso e antes de sentar  batia o travesseiro, virava ao contrário, e ligava o rádio na hora do Brasil. Eram doze olhos no escuro. Éramos seis. Meus irmãos e Mimi.

Hoje é que sei que aquela música que tanta temia era de Carlos Gomes “O Guarani”. As notícias que me fizeram tremer no fundo da rede quando eu principiava em dormir. Essas notícias vinham sempre acompanhadas dessa música. Mimi também não gostava.
Eram como o estalo de chicote no vazio.

“Assassinaram Kennedy”. Numa voz fanhosa. Não tínhamos a menor ideia de quem ele era na época. Depois soube que era presidente dos Estados Unidos, uma grande nação, essas bostas diziam.

Eu achava que melhor que  o Brasil não havia. Era um país que não tinha terremotos, vulcão nem grandes catástrofes. Somente algumas secas avassaladoras, mas como dizia de nós, o nordestino é um forte. Pensava até que os assassinos sempre têm seus motivos. E já sabia que tudo  girava em torno de interesses.

Depois: “O primeiro homem pisou na lua”. Grande merda  eu pensei na época. Eu já havia pisado em espinho de juá que dói tanto, dá até febre, pisado em xique-xique, mandacaru, em bosta de cavalo que dava frieira entre os dedos. Que glória tinha em pisar na lua?

Lembro-me  de meu pai  direitinho, dizendo:
-É tudo mentira desses americanos pernósticos. Eu sei por que vi a cobra fumar. Eles inventam porque são metidos a grande. Vivem colocando o dedo onde não são chamados. Umas borras bostas isso é que são.

Ainda hoje tem muita gente boa que não acredita que o homem foi na lua. Pergunte ao Manuel da venda. Ele vem com mil impropérios.
Mas voltando ao assunto, jamais havia visto tanto passarinho junto. Tinha azulão, sabiá, trinca ferro, rolinha fogo- pagou, galo de campina, tiziu, coleiro, cancão, canário da terra, pintassilgo. Muitos outros que não lembro agora. De todas as cores e tamanhos. E a cantoria só vendo. Parecia a banda de música no domingo no coreto da Praça de Santa Rita.

Ficava só ouvindo apaixonado. Tinha louro também que falava. Só vendo para crê.
Mas isso são lembranças. Preciso voltar ao tema. Como o pensamento voa, já disseram acertadamente.
Tenho que falar das eleições e dos políticos. Tantas cores. As vozes macias. Ficamos até entusiasmados. Tanta lábia. Vão resolver tudo para nossas vidas. Até parece que ficaremos em boas mãos. Papai falou: “Até  mudinho uma vez ganhou.” E cumpria tudo, pois não prometera nada para ninguém. Era surdo mudo.

 Finalmente escolhi um de plumagem linda e amarela. Levei para casa na mão mesmo. “Não carecia de gaiola, dissera meu pai.” Desde esse dia andava a tiracolo com ele. Acompanhava todos os seus passos. Colocava para dormir bem embaixo de minha rede. Até o medo de escuro eu perdi. Ele ficava por ali catando algo pelo piso. Uma beleza só.

Ganhou nome, chamava-se José, e quando virou adulto transformou-se num enorme frango.

A partir daí não tive mais sossego. Primeiro foi meu pai que queria comê-lo. Chorei uma noite inteira. Venci. Depois eram as visitas, não sei se faziam por gozação, mais era só entrar na sala e falava: “Dazinha, quero almoçar esse frango”. Eu arrumava um berreiro só.
Clarice passou por esse perrengue também. Não. Não era minha namorada não. Até poderia ser se ela quisesse. Achava-a fascinante. É. A Clarice Lispector mesmo. Apaixonei-me por ela quando escreveu: “Sou como você me vê. Posso ser leve como uma brisa ou forte como uma ventania, depende de quando e como você me vê passar”.

Minha mãe tentava explicar que galináceos são criados para ser abatida, a mesma lenga- lenga de sempre que desde a época de Cristo ou até bem antes, se falava, mas nada mudava minha opinião.
E as visitas eram daquelas pessoas que outro já falou. Como se diz delas. Lembrei-me. Recalcitrante. O que é mesmo re-cal-ci-tran-te? Um belo conto. Leiam.

E eu argumentava que tinha pegado amor por ele, essas coisas. Que José era da família já meu amigo íntimo e tal.

E aí foi o dia que quase fui político. Tentaram me comprar como fazem com eles. Prometeram-me  coisas que sempre gostei como ir ao sítio de meu avô nas férias, nadar no rio da turbina, acompanhar os “negros” ferrar o gado de dentro do curral, pular da torre do açude essas coisas que sempre sonhei fazer e nunca deixaram.

 Sou sincero com vocês. Quase sucumbi.  Minha mãe, ela própria, quando veio da capital, fora visitar minha avó Maria mulher de seu Antônio meu avô, que estava internada, trazia nas mãos uma revista de Tarzan. Jogou-a em cima da mesa displicente.

 O título baseado em “As jóias de opar” escrito por  Roy Thomas e   Desenhos de  John Buscema   by Edgar Rice Burroughs ficou a minha frente como que piscando. A capa era Tarzan em segundo plano pendurado no cipó, na mão empunhando o punhal, e em primeiro plano um grande macaco fugindo com Jane em seus braços.
Sabiam meu gosto pela leitura, e era fã número um dos quadrinhos e filmes de Tarzan.

Meus olhos brilharam com ódio. Fiz beiços e corri para o quarto. Minha mãe foi atrás com as mesmas ladainhas, e meu primo mais chato acompanhou-a justamente para saber o desenrolar dos fatos.
Gritei encolerizado.

-Saiam daqui! Saiam!
-Mas filho, dizia ela com a voz pastosa quando queria conseguir alguma coisa, - é somente um frango que está ficando velho.
Com essa frase bati o pé.

-Se matarem José, frisei bem o nome, sumo daqui para sempre. E comecei a chorar copiosamente. Parecia que a guerra seria perdida.
Meu primo sorriu. Minha mãe arregalou os olhos.
-Esqueça filho. Ninguém matará José só se passarem por cima do meu cadáver. E colocou aqui seu ponto final.  A família toda era dramática.
-Tome a revista, ela disse.

José morreu de velho muito tempo depois. E foi enterrado embaixo da goiabeira. Fiz uma cruzinha de palitos de picolé.
A revista eu li e reli mil vezes. Lia apreciando o detalhe dos desenhos, as curvas de Jane em horas solitárias, a ferocidade do orangotango.

Muito mais tarde compreendi que o intruso era o homem branco, ele estava ali para desmatar a floresta, tirar tudo o que ela tinha de mais sagrado, os animais, as plantas os rios, e depois abandoná-la a própria sorte. Acho que essa revista, que quase serviu como moeda suja, ainda existe e dorme tranquila em algum baú velho.

Voltando ao tema principal que era a escolha de um candidato, - me perdoem, pois quando começo a escrever perco-me em detalhes, que só me diz respeito e a mais ninguém, - um conselho: Nunca escolha candidato pelas  plumagens ou canto.

E principalmente escolha finalmente um candidato, de forma que se não der certo em seu mandato, possa ser abatido e assado num belo jantar.

28/07/2012



quinta-feira, 14 de junho de 2012

Boca fechada não entra mosquito






Era tempo de muito falatório e embustes no congresso. E vendo isso o presidente da casa resolveu imitar um antigo conto, em que numa pequena cidade o rei resolveu abolir a mentira, construindo em cima da ponte que dava acesso a cidade uma forca e quem quisesse entrar era questionado.

Fora editado e publicado a lei. Esta dizia: “Todos serão interrogados. Aqueles que forem pegos na mentira imediatamente serão enforcados em praça pública”.

Houve pesadelos e calafrios. Todos estavam atormentados e com medo de perderem o pescoço foi quando um deles mais astuto resolveu o imbróglio usando as brechas da lei  dizendo assim:

          -Uso o meu direito que está na constituição, que é o direito de ficar calado.
Nunca uma frase fora dita e copiada tanto.

Jamais a forca fora usada.

Agora serve como objeto de estudo e turismo, trazendo povos de outras regiões para observá-la.

Os jovens no intuito de brincadeiras e gozação postam fotos na internet sendo enforcados.
Já no congresso continua o maior silêncio.

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Exclamações de um defunto a respeito da morte





Com a morte de Ivan Lessa, grande cronista; resolvi  fazer-lhe uma homenagem singela. Sei que ele gostava de fazer frases. Claro. É isso que um escritor faz. Frases, orações, períodos, parágrafos...
Mas estas sem exceção  criações minhas. Se não tudo pelo menos a ideia. Se por acaso acharem que nem a ideia,  indago como faz um amigo meu: Tem culpa eu? Tem culpa todo mundo? Se as palavras saem de um mesmo livro que é o dicionário? Pois então não duvidem. Criei,suguei, copiei ou algo assim não importa.


                    Exclamações de um defunto a respeito da morte
Eis:

-Engraçado! Estou rígido, mas ainda penso.
-Não há luz! Talvez porque ainda não cheguei ao inferno.
-Agora pertenço à eternidade.
-Finalmente serei pó, mas que não seja cocaína. Não quero ser ilusão e perdição para ninguém. Já bastam meus textos que são uma droga.
-Um dia acreditei na sorte e na esperança.  Vivi.
 -Trilhei como um pêndulo entre a razão e a loucura. Incrível ninguém ter notado.
-Minha opinião agora é morta.
-Agora já era o amor próprio e o narcisismo.
-Ah! Ah! Agora é que quero ver lá do fundo à cara dos meus credores.
-O que desejo realmente agora é o silêncio.
-Peço delicadamente a quatro amigos ou parente, que suportem meu peso pela última vez.
-Se realmente existir espírito estarei de olhos e ouvidos bem abertos.
-Agora serei só. Um monte de terra e uma cruz em cima.
-O gozo carnal nunca mais. Agora é a plenitude.
-Sinto-me uma estátua. A diferença é que estou na horizontal.
-Venham! A fila andou. Sou apenas um número. Por sorte  com epitáfio.
-Mas, eis  a morte. Oh senhorita, és de verdade quem eu tanto temi?




quinta-feira, 22 de março de 2012

Recém formado

              
 Dentista, formado naquele ano, ainda cheirava ao baile de formatura.
 Sentou-se em frente ao computador e lia os últimos artigos sobre sua área, enquanto olhava demoradamente para sua mão esquerda, onde brilhava um lindo anel de formatura, presente da mãe, dado com muito sacrifício, já que era do lar e o marido, um funcionário publico, mal remunerado.
               Numa placa de bronze, preta, seu nome desenhado: Renato Orgulhou-se deles, coitados! Fizeram de tudo para forma-lo.
               Seu consultório foi montado com o que tinha de mais moderno, graças à confiança dispensada pelos gerentes.
A sala de espera era pequena, mas confortável: Tinha poltronas, revestidas em couro branco e nas paredes quadros de artistas de primeira linha e as luzes ficavam pela metade, dando uma aparência de conforto extraordinário. O som era ambiente.
            Ele olhou pelo circuito interno e viu a secretaria lendo uma revista de modas. Ele era moreno, simpático, vestia-se de branco, contrastando com seus cabelos cortados rentes e escuro. Levantou-se, e andou em direção da janela olhando pela fresta da persiana azul. Via carros passarem em alta velocidade e pessoas andando ligeiras para seus serviços. O consultório era bem localizado e ficava num dos prédios principais da cidadezinha. Repentinamente a secretaria entrou:
        -Um paciente doutor! Mando-o entrar? Esfregava as mãos de contente pelo primeiro.
Ele sorrindo pediu um tempo:
         -Calma Luiza! Deixe-me arrumar! Quero ficar com ar de importância. Vou pegar o telefone , fingir que estou numa conversa importante e ai você manda-o entrar. E assim fico bem na fotografia ok?
         Ela acenou positivamente e saiu. Ele leu uns segundos ainda, e fechou  a pagina  deixando no monitor, figuras de sorrisos brilhantes, com as frases manjadas embaixo: Antes e depois.
         Encostou os lábios no fone, impostou a voz e falou:
         -Por favor, Luiza, mande-o entrar. Imediatamente pegou o telefone.
Entrou um rapaz vestindo uniforme azul com um rolo de fios nas mãos, recebeu-o com um aperto de mão sem largar o telefone. Mandou-o sentar despediu-se de alguém do outro lado do fio,sem antes deixar entender que falava com o prefeito, e com muita intimidade. Despediu-se agradecendo:
          -Muito obrigado. Estarei ai para tomarmos uma cerveja, um abraço. Desligou. Pediu para que sentasse. Quis começar pela anamnese:

            -Qual seu nome?
            -?...
            -Não se preocupe. Não dói nada.
            -Olhe o crachá doutor! Ai diz Severino mas pode me chamar de Lino.
             -Endereço?
             -Aqui mesmo em Ubá, uai!
             -Por favor, Sr Severino. Logradouro, numero e bairro?
              -Fica no buraco quente sem numero. Não gosto muito desse nome não doutor mas tem que falar a verdade ne?
             -Claro!Trabalho. Faz o que?
             -Faço montagem. Desconfiado com alguma coisa. “Tem que fazer isso?”

-Muito importante para o diagnostico.
-Mas doutor...
-Calma Severino não dói nada!
-Eu só queria dizer... Sem deixar falar.
Apalpou toda a mucosa, os lábios e com os dedos na boca de Severino que subitamente retirou-os.
-Você faz o que mesmo?
-Monto telefone, doutor... e vim para isso mesmo! Montar seu telefone.
Renato caiu do pedestal e corou envergonhado.

Noite de Natal


A rua era calma e aristocrática. Pedrinhas multicores coloriam os passeios á noite. Os pisca-piscas brilhavam ininterruptamente, cores variadas. Véspera de natal. 
Data em que os homens fingem umas generosidades fraternas.
 
Nessa rua de riqueza, num elevado, sobressai-se uma casa, melhor dizendo,um palacete; de vastos jardins no centro, cascatas, águas límpidas, de uma fonte artificial de beleza impar. Na entrada desse palacete, uma porta larga e pesada de madeira de lei, esculpida pelos melhores marceneiros, e que em seus pórticos contrastando, via-se duas câmeras, olhos vivos, vigiando noite e dia.
 
Nos jardins, dois grandes portões de ferro, fechavam-na, e sobre os muros altos, corriam em cima, fios elétricos. Verdadeiras muralhas. “Entristecia-me deveras, aquelas casas, com seus muros altos”, - Reféns do medo.
 
Agora, o portão, abria-se automaticamente, deixando passar lentamente, um possante carro preto. O carro deslizou, velozmente, pelas ruas, furtivo, e sem olhar nos olhos dos transeuntes, esgueirava-se como que fugindo, do medo em cada esquina.
 
O homem liga o ar e levanta os vidros. Não olha a paisagem. Comprime as mãos no volante. Liga o radio e procura uma estação. Pensa nos negócios. “Esta indo de vento em popa”. Não pode relaxar. Só pensa nos lucros. Pega o celular e olhando para os lados e nos retrovisores, perscrutando as esquinas (costume adquirido depois de dois assaltos, saiu incólume, graças a sua esperteza), liga um numero do escritório, seu grande escritório de advocacia, ditando as ordens. Estava preste a ganhar mais uma causa, em que, retiraria uma favela inteira de um terreno, em que provara ser de um grande conglomerado, e que no lugar se construiria não aquele “chiqueiro de casas”, mas um grande hotel cinco estrelas. Sorriu! “Esse ano fora fabuloso”. Olhava agora para a grande favela, em que suas casas, construídas, nos despenhadeiros, equilibravam-se em palafitas de tabuas e restos de ferragens, e que logo, dariam lugar ao mais lindo hotel. Orgulhava-se.
Porem, neste bairro, de casas simples, também mora gente. Excluídos, e certo, a margem da sociedade, lutam de toda maneira para sobreviverem. Neste mesmo bairro, numa casa, das mais simples, acordam uma criança e sua mãe, que se deram ao luxo, de dormirem ate mais tarde, este dia, devida ser véspera de natal. Olhariam as lojas. Sonhariam. Lembraram-se do dia anterior, onde acordaram bem cedo, antes do sol raiar, e sacos nas mãos, rumaram para o lixão, à cata de coisas, sobra dos ricos, concorrendo com os urubus, aos sobejos. Não tiveram sorte. Pegaram uns restos de papelão, outros de jornais velhos, recipientes de plásticos, que seriam vendidos por preços irrisórios. Eram como os urubus, os higienizadores da natureza. Pobres famílias! 
Chegaram à primeira loja. Por detrás de vidros polidos brilhavam o sonho. Havia brinquedos movidos à pilha, controle remoto e todos os produtos importados de ricos países.
 
- Mãe!
 
- Que e?
 
- Escrevi outra carta! Os olhos brilharam.
 
- Pra quem filho?
 
- Pra quem mãe! Pro Papai Noel!
 
- Mas você não se emenda filho! Maneou a cabeça, em desesperança.
 
- Essa vez eu pedi coisa mais simples mãe! Levemente triste.
 
- Esqueci a bicicleta. E coisa grande! Só para os ricos! Apalpando os bolsos.
Hoje a criança estava feliz. Achara um revolver de plástico, igual ao de John Wayne, e com ele no bolso, sacava-o a todo instante, talvez treinando para um duelo fictício. 
-Pedi uma bola de futebol! E de repente saiu correndo com uma bola invisível no pe, deu um drible, parou, mais um, agora tocou a pelota no chão, ajeitou para a esquerda e deu um chute no ar, esperou um momento, acompanhou a trajetória da bola, esticou a cabeça e gritou:Goooooooooooooool!
 
-Menino!
 
-O que mãe?
 
-Para de grito!Não ver que ta chamando a atenção!
 
Os transeuntes fugiam de seu encontro. Não queriam ver a pobreza, tão escancarada em suas vistas. Passavam ao largo, apressados. Alguém, com do dos maltrapilhos, afundou a mão em um dos bolsos, e de longe, jogou uma moeda, das menores, e que o menino começava a correr em sua direção, em catá-la, quando sua mãe gritou:
 
-Não pedimos esmolas! Vivemos sofríveis e verdade, mas vivemos do nosso trabalho. Pegou da mão do menino, e saiu desconcertada. “Não precisamos de esmolas!”.
 
O homem catou a moeda e emendou: Miseráveis e orgulhosos! Era só o que faltava! E saiu pisando duro.
 
Agora o menino já se entretém, olhando outras vitrines.
 
-Mãe!
 
-Anh!
 
-Quem e aquele menino? Apontando o dedo.
 
-O menino Jesus!
 
-Ele e tão bonitinho! Parece meu irmãozinho que morreu! Não e mãe?
 
-E.
 
Silencio.
 
Pensativo.
 
-Ele e filho de quem mãe?
 
-Filho de Deus meu filho! Olhando pro alto.
 
-Que bom ser filho de Deus mãe! Pegando um pedaço de pão velho dos bolsos, e comendo vagarosamente.
 
-Queria ser também.
 
-Mas você e filho! Emocionada. Todos nos!
 
Pensativo. Agora tirando o miolo do pão e jogando aos pombos.
 
-Não sei! Não nos parecemos nada, mãe!
 
Olha-se no espelho. Mira-se demoradamente.

-Ele e tão coradinho! E olhe minhas mãos! Espalma as mãos esqueléticas. 
-Onde posso encontrá-lo mãe? Vagamente. 
-Acho que em qualquer lugar filho! E saíram subindo a rua olhando ora de um lado ora de outro, e o menino corria de encontro aos pombos, que voavam baixo e que de repente, voltavam em circulo atrás dos nacos de pão.
Noutra rua, próximo dali, o homem do carro preto, falava ao celular. Ver-se que se veste de Papai Noel e que tem uma longa barba branca. Vai participar das festas de fim de ano de sua empresa. Grita arrogante: 
-Não quero qualquer bebida! Quero champanhe francês! Vamos comemorar. Foi uma grande vitória! Os mortos de fome têm que sair! Ganhei uma bela bolada! 
Lá fora cai uma chuva fininha. Liga o desembaçador. Para no sinal vermelho. Ato reflexo olha em todas as direções. Um menino bate levemente no vidro e o assusta. São os vendedores de sinal, “meninos de rua”, de todos os tamanhos, ajudando a complementar a renda familiar. Oferece guloseimas. “Como aquele menino se aproximou furtivamente, sem conseguir vê-lo”. Rápido levanta os vidros, e com o dedo acena negativamente. Há uma tensão no ar. Nas mãos do menino, surge uma arma. Com olhos injetados de sangue grita loucamente. 
-O dinheiro tio! 
No olhar do homem, o rancor, a avareza. Comprimem-se todo com ódio e acelera bruscamente. Escutam-se estampidos. Cheiro de pólvora paira no ar. Gritos.  Sinal verde. Todos avançam sem se importar. O carro preto começa uma corrida vertiginosa, queimando o asfalto em derrapagens. Os vidros voam em pedaços estilhaçados. Desliza de um lado para o outro em zig zag indo colidir no parapeito da pista. Com o choque o capo, se levanta, subindo vapores de água fervente. Num átimo, um corpo crivado de bala, peito caído sobre o volante, boca aberta em agonia, inerte. Sirenes agudas cortam a noite quebrando o silencio. O menino arma em punho, mãos vazias, barriga vazia, corre, sumindo na escuridão. Vida vazia. A policia interdita a rua, os paramédicos chegam, e a noticia corre.
No outro quarteirão, o outro menino corre em direção a mãe quase mudo. 
-Mãe! Mataram o Papai Noel, mãe! As lagrimas desciam dos olhos fundos. Agora ele não vai poder atender meu pedido. Tosse. Das narinas descem catarros viscosos. Seu ventre fundo balança-se em soluços. 
-Não filho! Não e assim. Tentando acalma-lo. 
-E sim mãe! Vi agora na televisão. Deram seis tiros nele! Coitado! 
-Agora nem bicicleta nem bola! E talvez para sempre… Ele morreu! Falou resignado. 
-E melhor irmos embora! E saíram apressadamente, pequenos na noite. De vez em quando, uns e outros lhes apontavam os dedos. Não compreendiam. 
-Parados ai! Viraram-se subitamente. 
A rua apinhara-se de gente. Tinham muitos policiais, e todos lhes apontavam armas. 
Eram suspeitos. Pretos e pobres. O retrato falado. O menino também tinha treze anos. Assemelhavam-se 
O menino pensou que era brincadeira e levou as mãos nos bolsos, e como o mocinho dos filmes americanos, sacara sua arma de brinquedo. Pobre menino! Caiu crivado de balas, sem dar um grito. Sua mãe chorava copiosamente. 
-Bandidos! Mataram meu pobre menino! 
-Mãe! Estou segurando as mãos de Deus! Sorri. 
-Não meu filho! Queria dizer uma coisa. 
-O que mãe? 
-Que talvez ele não exista! 
-Não mãe! Agora estou nos braços Dele e Ele sorri para mim! 
“Venham a mim todas as criancinhas” Os sinos dobraram pesadamente doze vezes. Estampidos de fogos são ouvidos ininterruptamente. Feliz Natal! Gritam. 
Ao longe, muito alem, numa manjedoura, nasce o filho de Deus, corado, gordinho, e rodeado de presentes dos reis, enquanto, ali no asfalto, jaz um de seus filhos, magro e maltrapilho. Um inocente.

Contomeuscontos-Literatura-Crônicas: Artigo

Contomeuscontos-Literatura-Crônicas: Artigo

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

O Facebook







Numa fila de banco, enquanto pagava contas, a minha frente um rapaz e uma moça conversavam tranquilamente e ouvimos eu e mais um monte de gente  essa história, que não chega a ser história nem conto, apenas afirmativas aleatórias sobre algo tão em voga nos dias de hoje. Já que não tinha nada para fazer, a não ser ouvir, abri meu pavilhão auditivo isto é a orelha mesmo e deliciei-me com a conversa.

Ele falava para uma garota e esta confirmava tudo com um sorriso maroto. As pessoa em voltas faziam caras e bocas. Era como ouvir sem querer um telefonema particular como fazem nos dias de hoje com os fatídicos celulares. Pois bem. De tempos em tempos soava a companhia do caixa. plim! A fila andava.
(Rapaz): - Não te conheço de algum lugar?
(Eu):  “ Essa frase é velha, mas cabe nos dias de hoje.”
(Garota): - Pode ser! Tenho Facebook.
(Rapaz):  - Já usei muito, logo no início, mas agora, estão passando dos limites. Veja e me fale depois se não tenho razão. As pessoas tentam de toda forma parecerem felizes.
(Todos): Hummmmm!
(Garota): - Também uso bastante. Não vejo nada de anormal.
(Rapaz):  Ah! Claro que tem. Colocam fotos de tudo. Da sala, do quarto, deitadas, em carros, dançando, pulando, correndo. No perfil escrevem logo se namorando, separando, casados, traindo...
(todos): Tc-tc-tc-tc-tc-tc.
(Garota): - É a pura verdade. Mas a finalidade é essa. É unir as pessoas. Tenho vários amigos assim. Coloca toda sua vida, como um livro aberto.  Escancarada mesmo. É como olhar pelo buraco da fechadura.
(Rapaz):  -  Kkkkkkkkkkk.  Até fotos de churrasco eles mandam.
(Garota): - Normal. Do pessoal?
(Rapaz): - Não, da carne, na churrasqueira.
(Eu): Sorrindo para dentro.  -KKKKKKKKKKKK.
(Rapaz): - Tem de tudo. Dos fanáticos por times:
-ORGULHO DE SER RUBRO-NEGRO! Orgulho de ser Botafoguense! Orgulho de ser Vascaíno! Tudo vira motivo de orgulho.
(Garota entrando na dele): Orgulho de ser Guei. (Abrasileirado), orgulho de ser sapatão, orgulho de ser hetero. Até orgulho de ser homo sapiens!
(Rapaz): - As meninas vestem o melhor vestido e tiram fotos de tudo que é tipo. Dá até para conhecer as que colocaram silicone.
(Garota):  - Isso é a pura verdade. Geralmente colocam uma blusa decotada, e sorriem como dizendo nas entrelinhas para as colegas:   Morram de inveja. Só faltam colocar a quantidade, como coisas do tipo: 180 ml. Uma mais afoita: 300 ml.
(Rapaz):  - Umas desfrutáveis!
(Garota):  - Não é o meu caso. Todos indiscriminadamente olham para seu decote. São meus mesmos. Revela.
O Rapaz olha disfarçado.
Eu me contorço todinho ,mas o que  consigo , é uma dor na coluna, e  ver a pele do pescoço dela, puro pêssego, subir e descer no toque do coração.
(Garota):  - E os gurus? São muitos.  "Fé não é achar que Deus fará tudo o que você quiser. Fé é crer que Ele fará o que é melhor pra você."  Dá um livro de auto ajuda   hehehehehe!
(Rapaz):  - Outras falam coisas do tipo:
-Fui ali ser feliz. O que entendemos?  O óbvio.  Que foi transar e que já, volta.
(Garota):  - É mesmo, colocando a mão no ombro do rapaz:   - Só falta  uma foto daquelas de propaganda dos consultórios:  Antes e depois.
Antes: Toda penteada, batom vermelho, sorriso.
Depois: Toda despenteada, manchada de batom e cara indefinida. (Não se sabe se foi bom ou não).
(Eu): -“Está quase na malha do Don Juan”.
(Rapaz): - Muitos fazem apologia à bebida. Só tiram fotos com garrafas na mão. O pior quando querem enfiá-las noutro lugar.
(Garota): - Esses são os homens!  Os machos! Os fortes!
(Rapaz):  - Com certeza. Mas  vocês  adoram  mandar recado diretos tipo:
-Não me julgue, você sabe meu nome, não minha história.
(Garota): - Isso mesmo, e cai na risada.
(Eu):  ”Está virando guerra dos sexos”. Não demoram  trocam MSN.
(Rapaz):  - Um dia desses quase morro de ri. Uma garota postou uma foto no banheiro, e não notou que bem atrás a mãe dela estava sentada no trono.  Virou sucesso. Um sucesso que não queria. Kkkkkkkk!  Um milhão de cliques aquela semana.
(Eu): “ A garota tá ficando vermelha....”
(Garota):  - Mas aquela da foto sou eu, ela diz. E  aí ele se sente caindo num vaso, sem base.
Diz gaguejando tentando consertar: 
(Rapaz): - Ah! Não liga não! Todo mundo faz merda mesmo!
E só conseguiu  ri depois que a pretendente saiu acelerada de raiva.
(Eu):  -KKKKKKKKK. Que mico! Todos riram. Completei:
-Bem feito! Quem manda ter facebook!



sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Stand up

A cortina se abre(Ou qualquer pano), um homem ou mulher( não importa o sexo) entra rindo e fazendo careta. Fala com a plateia. A prepara para suas piadas. Brinca um pouco e começa.

          Eu sou leitor feroz.  E anda para todos os lados. Continua:  Igual cachorro louco. Não na medida de sair por aí mordendo todo mundo. Não. É que leio tudo que me vem às mãos.  Quando vou ao banheiro levo um jornal. Não é para limpar não. É que faço tudo lendo. E leio de tudo. Até bula de remédio.  Sou hipocondríaco também. Palavrão né? Juro. Sério.
          Descobri uma coisa boa nisso tudo e agora tiro proveito. Nas bulas descobri que todo medicamento tem efeitos colaterais. Até bem piores do que a própria doença.  Aí fiquei sabendo quais remédios tomareis para obter tais efeitos. Querem ver?   Veja este. Quanto maior a bula melhor. Principalmente aquelas de tarja preta. É.
 (Com uma bula na mão):  
          -Ah!  Essa diz que quem  tomar esse remédio  terá uma coceira pelo corpo todo. Ri. Hum!  Pausa.
Dispara rápido para a plateia ri:  
          -Tomarei  esse àquelas horas quando  estiver a fim de coçar o saco.  Quase todo dia claro! Até a presidenta toma. É
 Pausa.
        -Só que ela coça é a periquita né. Ou não É? Risada geral.
          -Esse outro- mostra a bula - diz que terei flatulência. Ah! Como foi  bom tomá-lo  no dia que  minha sogra veio me visitar.  Nesse dia  me vinguei.  Vou contar. Foi assim:  Cheguei a casa depois da pelada de fim de semana(Porque elas escolhem justamente o domingo para nos aporrinhar?) e a vi ali como um estafeta. Ela vendo o Faustão na minha poltrona predileta e tomando da minha cerveja. E no meu copo que tem o escudo do flamengo. Aí fudeu. Cresceu um ódio, pois sei que ela é vascaína doente. Fazia aquilo para me sacanear. Fui ao quarto e peguei duas pílulas grandes dessas que daria flatulências.
          -É peido mesmo, bufa em outros estados, estalo ou outros nomes qualquer. E sentei perto. Aí comecei. Primeiro aquele bem fininho. Assim ó. (imita) com um assovio.
          -Igual peido de menina moça. É. Menina peida fininho.  
Ela me olhou torto do jeito que sogra sabe: Assim  ó e faz uma cara feia. Eu olhei para os lados como se não fosse eu e ponho a culpa no cachorro. Digo: Com aquelas vozes detestáveis que os casais fazem:
          -Bem êêêê!  Falei para você não criar cachorro em casa não falei?  Vem ver que fedor está na sala.  
Ela me olhou desconfiada, mas  aceitou a desculpa.
          Dez minutos depois veio outro como uma onda, tipo um tsunami. Vem fazendo um ronco como uma leoa ferida. Prendo um pouco e solto devagar como fazem àquelas senhoras. Aquelas mesmas que vão à missa aos domingos. Elas rezam mais peidam também. Claro! Todo mundo peida. Com estilo. Faz assim: Pooom!  Depois balança o vestido para o gás despregar. Agora vocês já sabem. Se vir uma senhorinha balançar os vestidos já sabe. Poooom! E o cheiro?     -É Pa-vo-ro-so!
Minha sogra se levanta. Finge ir à cozinha tomar uma água. Corro para o meu lugar predileto. Aí minha mulher vem carinhosamente chata:
          -Bem êêêê! Senta pra lá que minha mãe gosta de sentar aí. A velha ri com desdém. Aí  planejo uma vingança.  Escuto o barulho no intestino grosso,  desce pelo delgado, vem devagar igual o Barriquelo nas curvas.  Seguro um pouco e quase explodindo  solto sem barulho..., devagar. Aquele do camarada que comeu feijoada e bebeu o dia inteiro.
Vocês riem porque são assim também.  Quando saem parece uma larva esquentando a beiçola.   Sabem do que estou falando. Digo uma verdade: Esses que esquentam dessa maneira, com certeza alguma coisa já apodreceram. Verdade. Como diz um cunhado meu quando soltei um assim: Falo com propriedade. Aprende-se muito com as gazes também. Ele disse abanando a mão em frente ao nariz:
         - Se colocar o polegar no dito cujo do sujeito que soltou esse e traçar uma circunferência de trezentos e sessenta graus em volta, pode operar com certeza  que está podre. 
Não demorou um segundo. Foi como uma nuvem negra.  A sogra me olha de través com ódio.  E grita:
          -Acho que tem um porco aqui!  Adoro. Rio baixinho. Grito para minha mulher me vingando das cervejas que ela me proibiu tomar, e de todas as coisas que os casais sabem quais,  e falei assim:
           - Benhêêê! Não falei que não era para criar cachorro dentro de casa?
Aí minha sogra se desesperou e gritou aturdida:
          -Sai rex, sai de debaixo dessa poltrona se não esse porco defeca em cima de você.
                                   
Mas consegui o meu intento. A velha se foi e eu fiquei a tarde inteira ainda peidando no sofá vendo o Faustão.
 Lá para as tantas resolvi sair. Peguei uma bula que dizia  que teria tonturas.
          -A-do-rei! Nessa noite nem precisaria gastar com a  cerveja. Não é incrível! Tomei logo dois, e cheguei à balada assim: faz uma cara com os olhos vesgos.
          -Tô legal vou curtir! E aí manos e minas, fazendo um gesto com o dedo. Pausa.  
Depois olhando bem de perto notei que as minas eram travestis e os manos umas lésbicas horríveis.  Na volta para casa, a pé lógico, (Depois de beber não dirija), duma hora para outra, trocava os olhos, e vinha o redemoinho, e ficava como os bêbados nas esquinas segurando o poste: Se cair eu caio junto(Voz arrastada de bêbado).

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Mas não era isso que queria falar. Como ia dizendo, da ferocidade de leitor, observei como os grandes escritores, pintam alguns de seus personagens.  Eles complicam. E como complicam!
          -Oh! Vocês exclamam Oh! Eu respondo. Verdade. Muito engraçado. Poderiam ser bem mais simples,  sintético, conciso, abreviado, breve, sucinto esses sinônimos que querem dizer: Curto e grosso.

           -Impetuoso!  Vocês pensam. Se pagarmos um papel e formos desenhando à medida que lemos seria mais ou menos assim, vejam:
GÉRARD DE NERVAL no conto “A mão encantada”,  prestem atenção:
Vejam como ele pinta um personagem gastando as palavras:

         “Seus olhos eram zarolhos e muito vivos, embora sempre semicerrados sob as espessas sobrancelhas, sua boca era rasgada, como as das pessoas que gostam de rir. Para acabar de pintá-lo, seria preciso pendurar no lugar de praxe um nariz comprido e quadrado na ponta, e também orelhas bem pequenas, moles, e de uma fineza de audição de ouvir tilintar um quarto de escudo a um quarto de légua, e o som de uma pistola de bem mais longe”.

-Um verdadeiro macaco. Não é? Muito mais fácil ele escrever: O homem era semelhante a um orangotango.

Mais além ele pinta outro: “um perfil em lâmina de foice testa alta, mas reta, nariz muito comprido e muito adunco, mas não no estilo dos narizes romanos, pelo contrário, muito arrebitado e com sua ponta apenas mais saliente do que os lábios finos bem proeminentes e o queixo para dentro; depois, olhos grandes e rasgados obliquamente debaixo das sobrancelhas, desenhadas como um "v", e cabelos pretos compridos completando o conjunto;”

 Bravo! Bate palmas. Na infância conheci vários amigos assim: O verdadeiro cara de lua, era como chamávamos não é? Muito mais fácil.


Machado de Assis o mestre dos mestres caiu nesse erro também de complicar. Veja:

Descrevendo Capitu: “Quatorze anos, alta, forte e cheia, apertada em um vestido de chita, meio desbotado”.

Era só escrever: Uma gostosa.

Continua:

“Os cabelos grossos, feitos em duas tranças, com as pontas atadas uma à outra, à moda do tempo, desciam-lhe pelas costas. Morena, olhos claros e grandes, nariz reto e comprido, tinha a boca fina e o queixo largo.” Aqui já parece um travesti. É ou não é?  Acrescenta:
“As mãos, a despeito de alguns ofícios rudes, eram curadas com amor; não cheiravam a sabões finos nem águas de toucador, mas com água do poço e sabão comum trazia-as sem mácula. Calçava sapatos de duraque, rasos e velhos, a que ela mesma dera alguns pontos”. 

-Ha! Há há ha! Poderia dizer simplesmente:

-Uma pobretona.

                                        ********

Vou escrever sobre isso outras vezes. Não sou novela, mas podem me acompanhar aqui no blog.


Quem quiser copiar para apresentarem-se em escolas, empresas, aniversários, casamentos ou até enterros, é simples: Paguem os direitos autorais.


sábado, 8 de outubro de 2011

A ilha das crianças perdidas

          Nem parecia o dia que ia mudar minha vida. De madrugada minha mãe levantou como sempre fazia, ia para o trabalho, meu pai não aparecera esta noite, devia estar socado em algum boteco da vida. Ela foi dizendo que já ia, que quando me levantasse alimentasse o Pedro, meu irmão menor, que tomasse café e escovasse os dentes, e quem tomará conta de mim, pensei, ainda olhou-se no espelho pregado na parede de tijolos aparentes. Era bonita. Tá mãe eu disse, abrindo os olhos com preguiça, uma aranha tece sua teia entre o caibro e a telha de amianto. Ainda me disse, Ah! Faz os deveres de casa também e estuda um pouco. Disse novamente tá mãe, e virei para a parede bocejando. Na parede pintada de cal branca pendurada, uma traça. Um beijo molha minha face.

          A mãe fecha a porta atrás de si, puxando o véu negro da noite. Os passos, chuva que vai parando. Tenho ainda tempo para dormir. Para continuar o sonho. Espanto uma nuvem de pernilongos que me sugara a noite toda. Relembro o sonho. Montado em um cavalo alazão, correndo pelas planícies, de uma terra desconhecida e distante. Deve ser a terra dos meninos felizes. Acordei com o chamado da mãe.

          Pedro faz barulho sugando e estalando a língua. Engraçado até. Ele ri. Faz isso quando está com fome. Pego a mamadeira de dentro da água morna, e com zelo sem acordá-lo enfio em sua boca. Ele suga quase sorrindo.

          O tic e tac do relógio em cima do criado, cinco e meia, decido dormir mais um pouco. Uma malha a mais a aranha teceu. A traça tinha saído e andava lentamente sem cair da parede. Uma edifica a outra destrói. Galos cantavam.

          Acordei com o sol quente por cima da telha, coando os raios pelos buracos como funis amarelos. Nas réstias voavam partículas minúsculas clareando pontos no chão de terra batida. Vozes de crianças na rua. 

          Pedro levantou-se, olhou em volta, pegou o bico e colocara na boca deixando pendurado um velho pano. Gostava de sentir o cheiro. Abre a porta. Uma lufada de luz invade o pequeno barraco. Fecho os olhos para não cegá-los. “Fica aí! Não vai para a rua, gritei”. Levantei sem escovar os dentes. Fiz os deveres, correndo. Da rua a claridade do sol, muita vida lá fora. O céu universalmente azul, sem nuvens, mostrando sua imensidão. Urubus circulavam. Pedro atento às evoluções.

          Felício... Pausa. Sorri com a língua entre o bico e o lábio. Quê? Perguntei. Queria voar disse ele, como se fosse a coisa mais fácil do mundo. Deve ser tão bom.

          Meninos no passeio brincam de amarelinha. Pego-o pela mão encosto a porta, sentamos no meio fio, à sombra. O menino pula a casa, riscada com giz no chão, já está perto do céu. Pula em um só pé, sem perder o equilíbrio. Passara do purgatório. Súbito uma frenagem brusca. Gritos de socorro. 

          -Deus! É Pedro! Peeedro! 

          Vizinhos acodem. Mil cabeças emergem nas janelas. Respiram aliviados, não são seus filhos. Gritos de dor e de espanto. O tempo uma eternidade. A ambulância chega. Ao pegarem meu irmão, deixaram cair o pano sujo de sangue. 

          Tento recordar como tudo aconteceu. É um turbilhão em minha cabeça. Só sei que aquele céu azul indecifrável, aquele sol morno, toda aquela natureza viva em volta não era capaz de satisfazer-me. Era como um quadro colorido na parede. Abstrato. Frio. Indelicado até. Não que eu não gostasse de arte. Mas a beleza também é cruel. Cheia de regras. A beleza é insaciável. Sempre quer mais. E tudo depende dos olhos de quem a veem. 

          À noite meus pais chegaram do hospital. Queriam saber de tudo. Mas nem eu sei como aconteceu. “Eu tava perto dele quando ele correu para o outro lado”. “Foi muito rápido!” Meu pai gritava, fedia a bebida. Virei a cara para não senti aquele cheiro horrendo. Foi aí que me deu um tapa.

          -Era sua obrigação caralho! Gritava encolerizado.

          Protejo-me com os braços magros. Tomo um chute e caio. Depois outro e outro. Quando estou no chão ainda tento explicá-lo: “Não foi minha culpa!” Ele pisa em mim, como se eu fosse uma barata. Tudo me dói. As costelas, a cabeça... “Tudo passa eu sei. Pedro não vai morrer. Morrer, que palavra feia. Morte! Morte! Morte! Desaparecer. Finar-se.
Uma grande fila. Que pensamento bobo meu Deus. “Sendo destroçado e pensando na grande fila que todos estamos, só esperando o ano, o mês, o dia e a hora determinada”. Eles gostam de mim. É excesso de cuidado. De zelo. Vou melhora. Prometo. “ Santo anjo do senhor meu zeloso guardador”... Rezei. Vou estudar mais. Preciso melhorar minhas notas. Tenho chance. O padre falou que meus pecados eram pequenos, e me mandou rezar dez padres nosso e três aves Maria.

          Mas não contei meu pecado mais grave. Conto agora. Sim. Desejei a morte dele. Do meu pai. Todas as vezes que ele me batia como agora. Ele judia muito de nós, de minha mãe, quando bebe. Um dia sem beber ele me deu um beijo. Como o de Judas. Ainda falou que gostava de mim. Que queria me fazer um homem de bem. Só se for do jeito dele. Um dia pensei em matá-lo. Quando ele pisou no pescoço da mãe. Mas não quero pensar nisso não.


          Mas a vida não era só infelicidade, não. Naquele dia como agora vai acontecer. Eu sei. Sinto que vai acontecer. É meu truque. Maravilhoso. Que eu acreditava só existir nos contos de fadas. Nem merecimento eu tinha. Não sou nenhum príncipe. Nem anjo. Teve até um tempo, um ano atrás mais ou menos que era muito mau; era conhecido como verdadeiro exterminador de passarinhos. Sem dó. Saía pela manhã, foi bem antes de Pedro nascer, e voltava da mata com o embornal lotado de rolinhas. Era para sobreviver eu sei. Vendia para o dono do boteco, lá no pé do morro. Seus fregueses gostavam, dizia.

          Depois que aprendi o truque parei. Toda criança aprende algum truque. Conheci alguns que engrossavam sua a pele como casca de árvore, para não sentir os toques libidinosos dos pais. Mas como eu ia contando, senti um frio nos braços. Depois uma febre repentina. Pensei que fossem catapora, aquelas bolhas se rompendo, eu escondido no fundo da rede, com vergonha da minha cara. Mas já tive disse mamãe. 

          Então vi que eram penugens saindo dos poros. E rápido se alongaram. Observando bem eram penas. No início pensei que era sonho, até belisquei-me. Não tinha aquele pressentimento de que ia acordar-me. 

          Saí para o quintal e alonguei os braços. Indubitavelmente eram asas. Enorme. E foi aquela noite que fiz meu primeiro voo. A perspectiva dos pássaros é linda. Muito ampla lá de cima. Primeiro bati os braços fraco. Receoso. Vigoroso depois. Que bom! Podia voar. Que liberdade. Dei rasantes arriscados. Quase tocando o chão.

          Hoje iria mais longe com certeza. Ódio do meu pai. E agora me sinto mais seguro. As vertigens sumiram. Não tenho mais medo de altura. Levantei-me e abri a janela. A brisa tocou meu peito emplumado. Joguei-me. Seguro. Subindo. Deixei o litoral para trás. Uma grande massa azul e liquida. Era o mar. Cheio de corais. Os rasos e os fundos o coloria. As gaivotas voando. As estrelas pontos de luz.

          Não sei quanto tempo voei. Uma pequena ilha apareceu. Que bom. Poderia pousar ali. Achava-me exausto. Quando aproximei vi que a ilha tava como um pequeno torrão de açúcar rodeado de mosquitos. Eram todos iguais a mim. Fiquei os observando. Todos faziam um planeio desciam retos e tocavam os pés pousando no chão. Para voar corriam em um platô e se jogavam no vazio.

          Aproximei-me desconfiado. Acenaram-me. Estavam tendo aula de voo. Voar é uma arte. Todos gritavam em uníssono: Decolar é opcional, mas pousar é obrigatório. E riam.
Um que parecia o líder falou:

          -Hoje vamos fazer a grande viagem em direção sul.
          “Todos aplaudiam batendo as asas, claro”.
          -Você! Chamou-me.
          -Treine o voo, pois na viagem que faremos enfrentaremos muito perigo. Já que está começando hoje, temos que dá várias dicas. 

          Levou-me ao platô. Corri e me joguei. Um frio na barriga. Bati as asas com força. “ Eles não sabiam que há dias vinha treinando.”

          -Suba! Suba! Gritou o líder. Eu subi o mais alto que pude. Dei um rasante. Fechei as asas, para cortar o atrito e desci vertiginosamente. Quase toquei o mar.
          -Bravo! Aplaudiram.
          -Agora como os beija-flores! Parados no ar. E aprendi várias manobras.

          Fomos deitar que no outro dia bem cedo iríamos viajar. Não consegui dormir de tão eufórico. Não é todo dia que se pode voar. Fiquei olhando minhas asas. Eram longas e esguias. Como pombo. Eram brancas. Na entrada da caverna, o anoitecer, o sol vermelho, e a imagem de milhares de aves chegando ao pôr do sol.

          Não era uma ilha comum. Era uma grande pedreira, escarpada, e do lado mais alto, onde as ondas se quebravam em estrondos, mil buracos nas pedras. Dali se via o mar alto, se perder de vista. E quando o vento trazia as ondas caudalosas, assoviava lobregamente. De manhã o sol esticou-se na superfície, trêmulo e brilhante uma hora amarelo outra prata.
Cedo o líder gritava. “Os novatos mais no centro. Todos entendidos.” Uma grande revoada começou. Parecia bando de andorinhas. Passamos sobre o morro. Os barracos eram quadrados minúsculos. Todos ainda dormindo. Senti saudade de Pedro. “Um dia o buscarei ”. Vontade de ir ao fim do mundo. Sempre sonhei em encontrá-lo. Quando perguntava a alguém onde papai Noel morava, falavam rindo: No fim do mundo! Um dia vou lá, pensava. Mas a liberdade é uma coisa engraçada. Lutamos contra tudo para tê-la, e quando a temos não sabemos usá-la. É como se estivéssemos à beira de um precipício. 

          Foi aí que soube que voar não era coisa fácil. Tem seus estudo e suas experiências. Mesmo tendo minha envergadura. Aprendi porque os iniciantes ficavam atrás. Quando via os patos selvagens voando perguntava: Porque alguns vão atrás? Agora sei. A batida das asas de quem está na frente gera uma corrente de ar que impele para cima a turma de trás.
Aprendi muita coisa. Estávamos voando há dias. Exaustos o líder nos chamou, para aproveitarmos as colunas de ar quente – as correntes ascendentes – e ganhamos altura, voando em círculos a centenas de metros de altura. Não precisávamos bater asa. Era só planar. Agora compreendia os urubus. 

          À noite guiávamos pelas constelações. O cruzeiro do sul. E sempre há estrelas no céu. De dia o sol nos ajudava. Também seguíamos as formações rochosas, os arquipélagos, as matas, os rios.

          Certa manhã, chegamos numa estranha ilha. Parecia deserta. Habitadas por plantas que falavam. Tinha de todas as idades. As cascas de seus caules eram grossas. Depois soubemos que eram crianças metamorfoseadas para se defenderem das caricias libidinosas que os seus pais faziam. Passamos a noite aí quando descobrimos o quanto eram amáveis.
Seguimos viagem dois dias depois de recuperarmos as forças. Voar gasta muita energia. Tudo tranquilo. O sol fresco, as montanhas já a víamos ao longe quando veio uma tempestade e um grande vendaval. Tentávamos manter a rota, mas o vento de través é muito perigoso. Pousamos na ilha depois de muitas tentativas. Aprendi como a cauda é importante no pouso.
Era a ilha dos meninos encantadores de ventos. Eles queriam nos derrubar. Pensavam que eram os grandes gaviões. E aí fiquei com medo. Os gaviões são predadores ferozes. Senti falta de ar. Uma voz como a da minha mãe, implorando para que eu voltasse. Logo quando eles souberam quem éramos, tranquilizaram os ventos. Mas nem eu sabia quem era. Se pássaros ou se anjos. O céu ficou claro, sem nuvens. Só o cheiro de sal e peixe. Gritos de gaivotas ao longe.

          Quando saímos no fim daquele dia, nem imaginávamos o que iríamos encontrar pela frente. Via os rios, pequenos filetes escuros, varizes da minha mãe, contornando as montanhas, no meio das matas, as nuvens pequenos nacos de algodão, se doce encheria a barriga. Súbito uma nuvem escura. Olhei em volta todos voavam assustados fugindo de um grande falcão. Voamos o mais depressa que podemos. Sabia que ele era muito veloz, em caça, quando mergulha alcançam uma velocidade vertiginosa. No meio de muitos ele me escolheu, talvez achando que eu era o mais inexperiente. Eles conhecem. Seus olhos veem de longe. Teria que usar toda minha astúcia e treinamento. Fechei as asas num mergulho. 

          Abandonei-me a força da gravidade. Ele atrás com os olhos cinzentos. Lembrei-me da aula de física. Quando ele parecia que ia me alcançar abri as asas aumentando o atrito com o ar, e ele passou batido com suas garras afiadas. Deu a volta. Olho nos olhos. Era meu pai. Os olhos negros tinha um brilho diabólico. “ Vou te pegar, malandro!” Voei rasante, penetrando na floresta. Voava da direita para a esquerda, de cima para baixo, como um pêndulo. Era minha chance. Pequena eu sabia.

          Meu pai tinha verdadeiras garras. Machucou minha mãe, meu irmão e eu. Teria que ludibriá-lo. Voei o mais depressa que pude e quando parecia que ia chocar-me numa árvore, no último segundo mudei de proa e o grande falcão, de garras terríveis, olhos sombrios, bateu o peito numa lasca de árvore e caiu por terra, ferido de morte.

          Não olhei para trás nenhum momento. Não valia a pena. Juntei-me aos outros na viagem para o sul, agora mais perto, já víamos as pradarias, as planícies, e uma voz longe me gritava: “Volta Felício, volta!” Por segundo pensei em voltar. Por minha mãe e meu irmão. “ Volta Felício pelo amor de Deus!”

          Depois olhei as pradarias, o sol nascendo... Uma grande ilha. “Não! Deixa-me viver aqui. Se sonho não quero acordar. Se vida, viverei aqui na ilha dos meninos perdidos.” Bati as asas mais fortes. 
          “Aqui serei feliz.”