quinta-feira, 28 de março de 2019

No país do carnaval: a morte de Arlequim


Retirado do site: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhBh2nlTVXsbiUtULYEOLOS463CURZwqB-ywfvBAoM07qccVGSmkQo1GgBKPy_LvQBoNy7hkdkQCNzi5BFyCw7GUqIueoiXu-b2KtHw-IIdx4c0yTZWnISnR_2A7CitmtIMmOsj7A4s5Q92/s1600-h/Pierrot2.jpg






                No país do carnaval: a morte de Arlequim


          A coisa aconteceu nos idos de sessenta e quatro, no mês de agosto, mês de desgosto, nessa época Serafim era um jovem sonhador.  Tinha dezoito anos, sonhos e ânsia de liberdade. Vivia a vida na idéia de um mundo novo cheio de amor e paz. Como a gazela que sai todos os dias para ruminar sem preocupação com a existência dos predadores. Esses têm muita fome e precisam se alimentar.

         Esse dia, era de manhã, o sol ameno, ventos calmos, Serafim estava ruminando idéias, com a mente no mundo da lua, quando súbito os tanques encheram as ruas, a roldana metálica tilintavam no asfalto moendo tudo que encontrava na frente e foi dado o toque de recolher e em seu quarto ele acordou de um pesadelo medonho. Agitou a cabeça como se quisesse acordar, mas tudo o que estava acontecendo lá fora vinha para seu quarto na imagem distorcida de um pequeno televisor. Era realidade.

         Foi percebendo aos poucos.  Como a noite cai: O sol se esconde, os pios das corujas aparecem junto com os grilos e a luz desaparece restando apenas a escuridão.

        Houvera uma ruptura e o país caiu na mão dos militares. Uma parcela da  sociedade apoiou, principalmente os ricos e empresários. A igreja também. Achavam que seria uma transição. Até a mídia apoiou.
      Era perigoso pensar doutra forma.

        Assim, entendeu então que precisava fugir. Jogou umas mudas dentro de uma sacola, calçou o tênis e quando ia sair algo o jogou para trás com tanta violência que ele caiu de boca aberta sobre a cama.

         Eram três homens. Os dois que entraram na frente o seguraram pelos braços e o outro veio para cima tentando arrancar coisas que não sabia. Fala! Fala agora seu meliante!

         O que falar, se o que queria era somente era viver em paz.

         O levaram para diversos órgãos, sofreu torturas que deixaram marcas físicas e psicológicas e a mais nefasta foi uma que não havia maneira de escondê-la.

         A marca indelével foi segundo ele, graças a sua falta de sorte “fui o bode expiatório!”.

       Seu “Finzinho” como era conhecido, pau para toda obra. O que diziam dele.
       Sozinho ele relembrava e questionava-se porque não fugira como os outros. Aproveitaram a frase em voga na época: “Ame-o  ou deixe-o!”  Deixaram. Poderia ter ido para o Paraguai um tempo, até as coisas normalizarem. Mas achava que a coisa fosse provisória. Venderia muamba de todos os tipos para seu sustento.

          Não deu tempo.

          O sorriso agora forçado, diga-se de passagem, mesmo quando acordava melancólico. Mas não tinha escolha. Mesmo triste seus lábios não cobria seus dentes, brancos e largos. 
  
         O executor quando o pegou disse-lhe gritando: “deixe essa cara amarrada, o que estamos fazendo é para o bem de todos! Desamarremos esta cara!  Vamos homem! E assim os dois brutamontes o seguraram pelos braços e o deitaram numa mesa  e o terceiro com uma faca cega, sem afiação fez o serviço.

           Foi à única vez que o viram chorar. Buscaram as fichas dele em todas as repartições, em toda América latina, na China e até na Rússia dos Czares. Nada. Serafim tinha a ficha limpa. Não era guerrilheiro. Nem miliciano. Nem traficante.

 O soltaram. Mas as marcas ficaram.

          O lábio superior foi cortado rente ao nariz. O inferior perto do queixo. Não podia usar barba nem bigode. Piada triste eu sei. É para quebrar o gelo. Só sei contar história assim. Amenizando.  Apaziguando meus instintos. O  euphémein em grego virou eufemismo.

        Mas bola para frente que atrás tem gente. Resolveu assim mesmo ser feliz. O sorriso era possível, estava acostumado a andar para um lado e para o outro mesmo se o coração chorasse. Por mais que tentasse ficar sério, mesmo se fosse um Dom Casmurro, não conseguiria, pois sem os lábios os dentes ficavam a mostra, no quaradouro. Evitava olhar-se no espelho pelo menos ao acordar quando a melancolia o tomava e fechava os olhos, para evitar ver-se sorrindo e babando, babando e sorrindo.

         Deus meu, que pulha! Acordar assim sorrindo sem motivo,  andar por aí, ao léu. Isso é muito irritante. Mas logo pensa  nos que não tiveram  a mesma sorte, desapareceram como fumaça e a família procura os ossos sem esperança. Não acharam os restos mortais. Não tiveram um enterro justo, como manda o figurino: Um velório, o corpo, choro nem que seja de carpideiras, uma solenidade, orações, uma cruz mesmo de madeira podre, as feridas ainda abertas como cancros incuráveis.

       Ele se conformava por isso. Pelas histórias dos outros. Logo ele que não tinha coragem de matar nem um inseto tipo Gregor Samsa, quando acordou certa manhã.

       Abriu os olhos ao espelho.  Os dentes alvos e grandes. A gengiva hígida. Disse-lhe o dentista um dia: O sorriso é o cartão de visitas. Mas não assim permanente.  Assim parecia uma máscara. Seria ele um monstro que nem podia beijar? Outros  vivem cheios de  mulheres. Muitas vezes quando volta à noitinha vê pelos parques e jardins casais se beijando, eles se limitam ao prazer intenso do ósculo. Ele não.  Como beijar sem os lábios? Só se fosse à mordidas lacerantes, mas, todas fugiriam dele.

         Voltou a fechar os olhos.  Bom, tenho que trabalhar; economizar bastante para realizar o meu sonho. Até lá vou empurrando a vida assim desse jeito. O tempo passará de qualquer jeito. Salta da cama, tenho que ir, a fome não espera, ela nos engole sem dó. Ia sobrevivendo. Fazia serviços gerais. Não tinha preguiça com ele. Limpava quintal, fossas, capinava, e todo tipo de serviços próprios para máquinas. Nem animais conseguiriam. Sempre quando voltava de algum serviço, mesmo exausto, o chamavam na rua. Ele atendia de pronto.

          Na maioria das vezes em gracejos:

“Seu Serafim cuidado com os home hem! Eles estão de olho! Se te pegarem agora  vão tirar todos seus dentes!”. 

        Ele abanava a mão em frente à cara suja como espantasse mosquitos e gargalhava contente. Sua gargalhada parecia àqueles brinquedos de cordas, rouca e borbulhante, o que fazia muitas vezes as crianças assustar-se. Os adultos não. Riam dele até dá dor de barriga.

        -Não liga filho! É o Serafim!

        Muitas vezes era toda uma família que vinham da missa de domingo, com as melhores roupas, os melhores perfumes, corados, saudáveis.  E divertiam sobremaneira.  

        A reposta as pilhérias eram inaudíveis. 

         Tente falar sem os lábios meus caros que vão entender o que estou falando. As palavras saíam sem consoantes e eles caiam nas gargalhadas. Ele também parecia divertir-se. Embora os olhos enchessem de lágrimas.

         Quando rimos desencadeamos uma reação no sistema límbico, região do cérebro que controla as emoções ou o conjunto de nervos que liga a mandíbula às glândulas salivares acaba estimulando a glândula lacrimal. Estava escrito no livro de ciências. Deve ser isso o motivo do seu riso. Um dos muitos livros que ele achou jogado no lixo.

         Compreendeu. Por isso choramos quando rimos muito.

         Um palhaço dos bons, diziam-lhe batendo em suas costas. Um pulha! Gritava outro.

        Depois disso ele seguia seu caminho. Era o que podia fazer por hora. Ia vivendo de um canto a outro sem fazer mal a ninguém.

          Mas em surdina ele juntava todo o dinheiro que ganhava para realizar o sonho de sua vida. Anos e anos.
Foi no natal.

        Olhou para o relógio. Em fim chegou o dia!  Eram cinco para a meia noite e dava apenas para ele sair correndo com o saco nas costas e todas as traquitanas que levava no seu interior. Estaria preparado? Na rua, viu todos os festejos, as luzes brilhando de todas as cores e tamanhos; talvez tudo fosse diferente. Sim, mas seria inimaginável sentir tristeza aquela data que tanto lembrava sua terra natal seu jardim de infância.

        Bom, não era hora de pensar noutras coisas, teria que ter foco no que ia fazer para não ocorrer nenhum erro. Tinha treinado algum tempo, o tiro deveria ser certeiro, justamente no coração das pessoas.

        Escolheu essa data, pois segundo ele os corações estariam moles, ele repetia como um mantra. “Estão oles!”. A falta dos malditos lábios.

         Quando deu meia noite, o sino da torre completou as doze badaladas e as pessoas desejavam feliz natal, ele saiu do beco escuro  com o saco nas costas, e foi distribuindo flores e presentes a quem passava, saltando, sorrindo e chorando.

              De início as pessoas ficaram perplexas, sem ação, mas depois foram aceitando de bom grado.

             Esse dia ninguém soltou pilhérias com ele. Com certeza foi o dia mais feliz de sua vida. Ele quis desejar feliz natal, mas não conseguia.
            Serafim ficou envergonhado ao ouvir a sua voz, as palavras faltando sílabas, ouviam-se bem as vogais semelhantes um gato miando no telhado, ecoando em volta, coisas sem sentido e nexo.

       Essa noite ele dormiu tão bem que não notou a chuva cair até pela manhã quando os pingos vindos da janela o acordaram. Estava satisfeito. Tomou o café rápido e saiu para a rua.

      A rua estava cheia de crianças pelos passeios e praças brincando com os brinquedos de natal. Ele passou ao largo.

     Alguém o chamou. Está sabendo da última, disse-lhe.

        Alguém da sociedade local, homem poderoso, resolveu pedir aos mandatários, veja você mesmo no papel: que não era possível vê tanta felicidade, naquela cara repugnante, uma coisa horrível de se ver, andando por ali, nas praças e ruas, assustando as nossas crianças. E pedia encarecidamente em nome da população, que em plebiscito resolvesse a questão, questionando os honoráveis cidadãos, dizia o ofício assinado e datado por muitos, para responderem sucintamente, sem embromação, se sim ou não,  a obrigatoriedade do uso para Seu Serafim, de uma máscara para encobrir o terrível aleijão. Que não era possível cruzar com ele  andando daquele jeito com a boca escancarada cheia  de dente e babando pelos passeios e praças públicas de nossa  bela cidade. Estava espantando os turistas. E fazia por fim uma observação: Muitas vezes dava dó, mas na maioria das vezes dava nojo.

        Serafim leu tudo aquilo sem dizer uma palavra.

         A população não se furtou ao pedido e na câmara, houve grandes debates. No final ganhou o sim. Sim a partir daquela data, Seu Serafim, seria obrigado, com risco de multa ou prisão  em locais públicos a esconder de qualquer forma seu sorriso, usando para tal, dizia por último o ofício: qualquer coisa, mesmo  um lenço daqueles que os bandoleiros usavam para assaltar no velho oeste.

      Na segunda feira bem cedo o oficial levou a resolução.

       Vale dizer aqui que Serafim era homem culto. E em suas andanças recolheu a maioria dos livros que mantinha em sua biblioteca. Gostava de lê a maioria dos filósofos. De Nietzsche repudiou seu niilismo. Ele acreditava que tudo tinha sentido, principalmente a existência humana. Ria das idéias dele a respeito de Deus. Como Santo Agostinho, ele achava que era um predestinado.
Com  David Hume aprendeu que a razão seria o alicerce da sociedade.
 São Tomás de Aquino com sua ética e metafísica e teorizando como a realidade é constituída.
Georg Hegel com a fenomenologia do espírito, suas idéias de explicar o mundo real.
Com Descartes aprendeu a frase que pensava as noites de solidão: Penso, logo existo. Sobre Platão uma nota num canto, talvez para lembrá-lo.  Lê mais minuciosamente esse filósofo.
Kant estava ali pregado no muro. Tinha grifado a proposição de um princípio universal que não causasse danos para as outras pessoas.
Aristóteles, numa espécie de redoma, protegido dos mosquitos que rondavam o ambiente.

       Ele dizia que lia tudo, até bula de remédios.

       Além de todos esses autores tinha um bem atual, datava de mil novecentos e quarenta e sete. A capa tinha sido arrancada, aliás, não dava para advinha-lo um livro, a não ser pelo texto comum em todos: Todos os direitos reservados. Proibida a reprodução, armazenamento ou transmissão de partes deste livro, através de quaisquer meios, sem prévia autorização por escrito. Proibida a venda desta edição em Portugal e resto da Europa.
 O autor começava com a letra  O e o sobrenome era  Carvalho. As folhas que foram encontradas não davam pistas. Estavam numa lata grande, onde estava escrito: manteiga natural e sem sal, que Serafim usava como sanitário. Páginas estas todas sujas de excrementos. Ele usou para limpar-se.
        
        Mas isso não tira o mérito do escritor. É só objeto encontrado na cena onde se fez a perícia para entender o que acontecera. Cada um tem suas funções. Seria honra de ter uma  de suas páginas usadas em tão relevante fim?
             Serafim, lia nesse interlúdio de ócio, além desses livros técnicos, também a Commedia dell'Arte. Nada melhor para esquecer a realidade que ele vivia.  O que o fez se apaixonar  por esses personagens principalmente, Colombina, seu amor platônico.

            Quando veio a ordem de esconder-se atrás de uma máscara ele logo escolheu que seria o Arlequim. Pela sua leveza. Pela sua paixão.

               Assim correu numa loja dessas onde se vende de tudo e comprou a máscara, e passou a usá-la diariamente. Todos gostaram. Melhor assim, disseram: E ia ele pra baixo e para cima sorrindo da vida que levava.

             Mas o tempo é senhor da razão, da ferrugem, da rotina, das rugas...

              Assim os mesmos cidadãos disseram: não dá, disseram. Aquela cara sempre sorridente dava nos nervos. É preciso mudanças.
Que escolha outra.

          O que fazer pensou Serafim para agradar a todos?

          E correu a loja o mais depressa possível. Pierrô. Agora seria o pierrô, amante de Colombina.

         Logo disseram: Isso é bom! Tudo resolvido! Pierrô está bem! “a tristeza é razoável, já a felicidade fere como faca”. A tristeza une pela infelicidade. Esse está bom. Assim não nos fere com sua alegria, diziam.

        Assim mataram o Arlequim, mas Serafim encontrou forças para divertir as crianças na rua. E se divertia ainda.

       Só à noite, ao voltar para casa, todo o dia mirava-se no espelho e via aquela lágrima caindo silenciosa e foi entristecendo-se.

       Sempre quando estou contando essa história e chego aqui, desculpe, minha voz embarga, pois me lembro dos textos daqueles livros saltando em negrito e do sorriso dele, a bondade, me dá um nó aqui...

          Encontrei-o ali, naquela árvore, pendurado numa corda, enforcado.
         O bilhete dizia: Eu só queria ser feliz!


quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

Slogan ou bordão











                          Slogan ou bordão




         Esse slogan de “Brasil acima de tudo e Deus acima de todos” é ridículo. Ridículo porque uma coisa nega a outra. Se Brasil acima de tudo, tudo inclui Deus. Se Deus acima de todos da mesma forma.

         Aí lembrei uma historinha:
 
         Alguém muito curioso um dia, na aula de catecismo, perguntou ao professor o que era onipotente. O professor dissertou sobre os predicados de Deus. Que onipotente era virtude somente de Deus. O alguém ligado a histórias em quadrinhos ainda redarguiu:

               -Como os super-heróis professor?

               -Não! Nem os super- heróis têm tal poder. Disse o professor sorrindo da inocência do pupilo.

               Aí a pessoinha ainda desconfiada e fã de super-homem fez um teste com o professor:

             -Professor seria então possível Deus criar uma pedra tão pesada que ele não pudesse levantá-la?

             O professor ficou sem palavras, pois vejam. Se ele responde que sim, nega a onipotência de Deus, e se responde que não, da mesma forma.
Voltando ao slogan, sabemos que a primeira frase foi plagiada do nazismo de 1930, “Alemanha acima de tudo” (Deutschland über alles).

             E já vimos no que deu.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019

Só os violinos sofrem








                                   
                                Só os violinos sofrem



          Na noite em que completava dez anos de casados, um buquê de flores vermelhas enfeitava a mesa da sala, Luíza recebera um telefonema que dizia peremptoriamente: “Seu marido é um monstro. Eu o reconheci hoje na televisão”. Ainda dizia que seu Fran querido não passava de “um torturador frio e sórdido!” e desligou. 

           Luíza sentou-se para não cair. Abaixou o fogo das trempes e colocou as mãos na cabeça. Justo agora que Franklin recebera a medalha de honra ao mérito e estavam bem. Parecem coisas de invejosos, pensou.

          Foi até a mesa de centro e releu o cartão:

Parabéns para nós e para nosso casamento! Você é a esposa mais querida, fofa e amorosa que algum dia poderia imaginar ter na vida. Sou feliz ao seu lado e tenho certeza que sempre serei. Te amo, meu bem.
              Assinado: Franklin Moura Scarpa

          Luíza é uma mulher bela de trinta e três anos, arquiteta e dona de casa exemplar. Conheceu Franklin quando ele apareceu no escritório dela em busca de um projeto. Foi amor a primeira vista. Desses de novela das seis ou contos de fadas.

          Conheceram-se em janeiro e casaram no mês das noivas, escolha dela, numa capela simples de um povoado. Só amigos mais chegados escreveram no convite.

          Voltou à cozinha a tempo de evitar um acidente iminente.  A filha de três anos que deixara sozinha para atender ao telefone. Estava atarantada.

          Gritou:

          - Camila!  Já te falei mil vezes para não fazer isso! A filha assustou-se. Continuou:

          -Não pode fazer isso entendeu? Entendeu? Segurava-a pelos ombros.

Justo na hora que Franklin chegou da corrida  e a viu chacoalhando a filha daquele jeito.

          -O que aconteceu?

          -Essa maluca quase se queimou no fogão! Por um triz!

           Acontece que ele sabia das artimanhas, conquistava qualquer um, principalmente a filhinha dele. E a vendo triste dissera:

          -Monta aqui no papai vai!

          Camila de primeira não quis.

         -Vem senão o “vavalo” dá um coice!  Fingiu acertar a ponta do pé na filha. Uma loirinha encantadora de três anos.

         Ela abriu o sorriso e montou nele. Brincou um tempão. Enquanto a filha o cavalgava ele pensava:

           “Que diacho deu nessa mulher? Ela nunca tratou a filha dessa maneira!”. Depois que a filha se acalmou,  subiu ao quarto.

         Luíza foi atrás. Os passos ficaram no tapete vermelho. Fechou a porta. Ligou a televisão. Chamou a sua atenção.

          -Você ainda não viu?  Só se fala nisso. Veja você mesmo.         Luíza havia gravado.

          No vídeo uma mulher falava para um jornalista, o quanto sofrera na mão de um torturador. Contava em detalhes como fora torturada, dias a fio, e se encontrava arruinada física e psicologicamente pelo homem chamado “Chacal”. Tinha a foto do homem.  Um retrato falado. Seu querido Franklin, amor da sua vida, seu marido, o chacal.

          Nesse ponto Franklin desligou a TV. Não falou nada, pegou a toalha, entrou no banheiro, pediu que Luíza colocasse um vinho na mesa e preparasse algo saboroso para comerem. Do chuveiro dissera simplesmente:

         -Sou inocente. Vou provar.

          Luíza desceu para a cozinha e preparou algo. Um espaguete à Matriciana. Numa frigideira, em fogo médio, colocou um pouco de azeite e pancetta de porco cortada em cubos médios. Juntou tomate pelado. 

         O conhecia realmente? A resposta não veio assim de pronto, verdade sejam ditas, existem pessoas que não se deixam conhecer. Quando conheceu Franklin ele era um  sonhador como  todos jovem recém formado, gostava de romances policiais, a biblioteca estava cheia, colecionava chaveiros e moedas antigas, que as mantinha super limpas e organizadas, em gavetas numeradas, ele as mostrou com zelo para ela, e que era um “fofo” por se lembrar de todas as datas de aniversários segundo os amigos e datas importantes e que abria a porta do carro, que dava bom dia aos transeuntes, os vizinhos o adoravam, mas se surpreendeu com ela quando pegou uma colher de sopa de tranquilizante e pensou em colocar no espaguete.  Não, não o conhecia. Seu Franklin era uma incógnita. Ele um lago. Ela uma libélula. Que o tocava apenas na superfície, mas como toda libélula sabe, embaixo da água, existe monstros que podem devorá-la. E esse medo a mantinha distante e as noites que ele levantava chorando com pesadelos, ela fingiam dormir. São as águas profundas  que guardam os segredos em seu leito. Que segredos? Com isso em mente talvez foi o que fez jogar no lixo a colher com o tranquilizante. Seria talvez sua única salvação. Mesmo por que não podia fazer muito, estava na casa da praia um chalé construído sobre uma rocha sólida. Franklin comparou-a ao casamento deles. Como disse ele orgulhoso na época: longe de tudo e de todos, firme como uma rocha e principalmente o quintal abre-se para o mar.

         Realmente uma vastidão azul de solidão. Sim. Ela sentia-se só.
          No diário ela escrevera: “Esse mar tão lindo e de sol brilhante e eu tão triste, tão cinza!”. O resto folhas em branco. 
          O silêncio é próprio desses casais.

          Preparou a mesa para dois. Dois pratos dois talheres um vinho tinto suave e duas taças de cristal.
          Esperou na cabeceira da mesa talvez arrependida de não ter colocado um sonífero no vinho. Ele pegaria no sono e ela e a filha escaparia incólume.
          Mas por outro lado, precisava acreditar nele, ouvir ao menos a história dele, dá um voto de confiança, afinal todos são inocentes até se provar o contrário. Isso a confortou momentaneamente.

         Porém não restava dúvida que uma noite de amor não teria nenhum sentido. Não havia clima. Assim não colocou nada diferente, por exemplo, nos anos anteriores tinha comprado lingerie vermelha e cremes massageadores. Estavam todos na gaveta do criado mudo. Vestia um vestido preto mais apropriado para a hora.

          Franklin desceu de roupão. Colocou uma música ambiente para não acordar a filha que dormia lá em cima. Escolheu “Sinfonia da despedida” de Joseph Haydn.

          Encheu as taças de vinho e brindaram a saúde, à vida ao amor, enquanto  a sinfonia dava os primeiros estribilhos. Luíza  conhecia a história dessa música.
           Franklin sempre quando escutava, fazia questão de contá-la para as pessoas: Ele se orgulhava de conhecer a maioria das obras clássicas. Ele sempre contava com os olhos baixos, a voz embargada.

“Havia uma lei no império húngaro para que os músicos fossem ao palácio de Esterhaza no início do verão, sozinhos sem famílias para várias apresentações.
 Eles ficavam o verão inteiro sem vê-los e morriam de saudades dos seus. Inconformados um dia, pediram que Haydn intercedesse de alguma forma ao príncipe.
Então Haydn fez essa obra prima como protesto político. Se apresenta para príncipe e durante a obra os músicos foram saindo um a um e quase no final Haydn deixa o palco e ficam somente dois violinos quase inaudíveis.

          Assim o príncipe entendendo o recado diz:

“Meu caro Haydn, entendi a mensagem! Os músicos têm saudades de casa... Muito bem! Amanhã fazemos as malas...” e liberou os músicos.
A música assim se eternizou pelos séculos.

Franklin bebeu toda a taça.

          Agora é tarde para arrependimento pensou Elisa. Franklin já havia tomado várias.

          Súbito veio em sua direção. Ela ficou em pé esperando-o. Ele a agarrou pelo queixo e a beijou com violência na boca e nos seios.

          Ouviam a volúpia dos violinos na música.

          Depois ele ajoelhou-se e colocou a cara no meio de suas coxas. 

          Mordeu, lambeu,beliscou e babou. 

Num impulso arrancou a calcinha dela.

          Luíza estava seca. Fria. Seca de sentimentos. A flor não acolhe, encolhe.

          Franklin como tivesse o arco de violino na mão; um exímio violinista que antes de tocar, passa o breu para produzir o atrito entre as cerdas e as cordas, gerando o som,  passou o lubrificante e a penetrou com força. 
          Os violinos estavam alucinantes. O breu fez o efeito desejado. Ele gozou. Gozou dentro da ferida. A vagina era uma ferida ardente. Ele a feriu por gosto.

          Depois ele separou-se rispidamente. 

          Ficou de costa para Luíza enquanto ela se encolheu na posição fetal e chorou. Se a pessoa chorou, sobre o cadáver as  lágrimas se cristalizam.Ficam na pele.

          Os instrumentos vão parando um por um. Uma bela sinfonia. 
         
          Como fora bom o sexo outrora, Luíza pensou. Agora só sentiu asco. Nojo de si mesma. E de Franklin.
          Ele vestiu-se e entornou na boca o resto do cálice.
          Subiu as escadas, lento, ouvindo os últimos acordes.
         Depois desceu transtornado. Descabelado.

         -Onde ela... O que houve?

          Luíza perguntou pela filha.

          Tudo terminado, ele talvez dissera para feri-la mais. A última sinfonia. Podemos dormir agora. 

A filha na hora se encontrava dormindo. Morreu assim. Inocente.

          Luíza fez menção de correr, de salvar-se a ela e a filha, mas sabia que era tarde. As marcas na janela contam a história. Mostram toda a luta que teve. Ela quis pular. Encontraram madeira e pele em suas unhas.
          Franklin veio em sua direção. Colocou as mãos em seu pescoço e apertou... Apertou. Ela desfaleceu. Aqui na poltrona ele sentou-se e apertou o gatilho. Mancha de pólvoras nas mãos.
        Finalmente quando a perícia chegou, ouviram só a voz dos violinos em uníssono. Bem triste.







terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

A sorte









                                      A sorte



          Um rato saiu de madrugada para procurar comida, preferencialmente um queijo mineiro. Ao sair da toca olhou para um lado e para o outro e vendo que o caminho estava livre, atravessou o corredor num instante.

          -Que sorte! Essa casa abandonada toda minha e ainda  esquecem um queijo sobre a mesa!
 
          Eis que no final do corredor há um gato a espreita. Ao vê-lo o rato exclamou:

        -A vida é muito injusta! Sofro desde o nascimento!

         A injustiça só aparece quando é desvantajoso para ele.  Embora haja disparidade de coisas que parece realmente injustiça, por exemplo: saúde riqueza, poder etc. Mas no real tem menos injustiça no mundo do que parece ter.

         “Afinal tenho uma bela saúde, estou vivo por enquanto, tenho disposição e adoro queijo”.

        Assim ele deu um salto enorme para escapar e por azar caiu dentro da caixa d’água. Observou nesse ínterim que tinha mais quatro na mesma situação. Nadavam loucamente para sobreviver.

        O pior é que na caixa tinha somente uma boia e só um rato poderia apoiar-se nela. Logo surgiu um debate acalorado, que o primeiro tinha mais direito, mas todos discordavam disso, pois todos tinham direito a vida.  Assim depois de muito bate boca, resolveram que o mais justo seria uma escolha usando o aleatório. Num acordo de cavalheiros fizeram um sorteio.

Ele ganhou.

        Depois que os quatro morreram, ele usou seus corpos para sair da caixa d’água.

          Fora de perigo, deus graças a seu deus e a partir daí nunca mais reclamou da sorte, e do aleatório da vida, pois o aleatório é justo, até justíssimo, por que em sua escolha cega, não segue convicções nem preconceitos.



segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

Sem palavras








                                                    Sem palavras




           Eu fiquei contrariado com uma pessoa do meu convívio quando chegou para mim, não sei se ele é ateu, e disse: Deus tem dois atributos verdadeiros que são onisciência e onividência .
          Eu imediatamente o consertei. São três atributos dados ao divino, eu disse.
          Ele continuou:
          Onisciente é a qualidade ou condição do que é onisciente. Saber absoluto, pleno; conhecimento infinito sobre todas as coisas. Isso é inegável. Afinal criou tudo.
          Onividência, diz-se do que tudo vê que tudo conhece.       Inquestionável também. Já onipotência é discutível. Ele disse.
          Fiquei de boca aberta.
          Ele disse ainda: 
         -Eu não só falo mas provo.
         -Faça isso, blasfemo, eu disse.
        -Se Deus é o todo poderoso ou onipotente pode tudo não é?
        -Claro eu disse. Sem nenhuma dúvida.
        -Assim sendo, poderá ele criar uma pedra tão pesada que nem ele conseguiria levantá-la?
        Eu fiquei pensando. Qual seria a melhor resposta? Sim ou não?
        Ele me deixou numa sinuca de bico, pois se eu dissesse que sim, que ele poderia criar tal pedra, estaria confirmando que ele não conseguirá levantá-la, percebeu? E se eu dissesse que não, que Ele jamais iria criar coisa que não tivesse poder sobre ela, eu estaria negando sua onipotência também.
        Fiquei sem palavras.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

Ladrões de sonhos



                                    Foto tirada do site:  https://www.significadodossonhos.inf.br/sonhar-com-crianca/



Ladrões de sonhos




          Naquela manhã de agosto Pedro deparou-se com uma caixa. Uma caixa vazia. O que esse objeto está fazendo aqui, ele questionou.  Uma caixa tem a forma retangular. De cor marrom.  De papelão. De fora dava para vê duas laterais do mesmo tamanho e duas larguras da mesma forma.   Vista de dentro, se ele diminuísse do tamanho de um polegar, veria quatro paredes paralelas, um teto e um piso.  E se vista por uma de suas arestas veria três faces.

          Nada de extraordinário a não ser comprovar que, para cada coisa há no mínimo  três pontos de vistas. E assim sucessivamente.

          Então, fique sabendo caro leitor, se lançares uma opinião seja qual for acerca de algo que jura ser a verdade absoluta, haverá outras tantas da mesma forma.

          E foi por isso, portanto, que o seu grande sonho era ser escritor. Tantas possibilidades de contar a mesma história. Mas só tinha um, porém. As grandes idéias só surgiam em sua cabeça nos sonhos. Acordado ele era apenas um mequetrefe de frases incoerentes e desconexas.

           Assim decidiu essa manhã, anotar as idéias que surgissem e para isso arranjou um caderno e o colocou na cabeceira da cama, “para que elas não fujam ao acordar”.

                Assim as anotações avolumaram-se rapidamente e encheu graciosamente inúmeros cadernos.  Só parou quando percebeu que tinha episódios para toda a vida. A partir daí resolveu separá-los e editá-los da melhor forma possível, precisando para tanto passar a limpo e assim correu para a papelaria da esquina.

          Quando cruzava a rua da frente de casa, um carro descia no sentido contrário. Só deu tempo de fechar os olhos. Pimba!  Acertou-o ao meio. Essas cenas para matar os personagens, se parecem mais tirados de filmes de terceira categoria. Não é necessário nenhum gênio para criá-las. Mas com Pedro não foi assim fácil. Depois do acidente vamos encontrá-lo suando frio em sua  cama, desconsolado.  Não sabia se chorava ou se sorria. Ficou puto da vida por não ter desconfiado de nada. Ou seja, havia mais de ano que dominava seus sonhos.  Pressentia quando estava dentro de um e assim podia ousar. Chegou ao cúmulo de  atirar-se de um prédio de dez andares.  Sabia que ao abrir os braços voaria como heróis da revistas em quadrinhos. 

          Como não percebeu dessa vez?  Como se deixou levar por caminho leviano, sem desconfiar de nada?  Essas questões o deixaram deprimido. E o pior foi compreender que os cadernos e todos os textos se evaporaram em uma fina névoa do sonho. “Esses sonhos são orquestrado pelo anseio de seu ego ávido por  confetes e purpurinas, dissera o psiquiatra que o atendeu.
          E naquela manhã  por conseguinte, levantou sem esperança alguma de lembrar todas aquelas lindas histórias que havia tão bem copiado naqueles cadernos. Uma tristeza enorme o abateu.

                 Depois da alta, pois ele andou um tempo meio atarantado, levantou-se e tomou um banho de água fria para retornar a lucidez. E ate beliscou-se na esperança de estar sonhando novamente.

          Dura realidade. A água fria escorreu pelo seu rosto, pelo seu corpo e caiu no ralo um liquido azul anil.
 
          -Azul!  Azul!

          E olhou as mãos toda manchada de tinta. Sobre a  escrivaninha  uma caneta com a carga gasta.

          - Então não foi sonho? Isso que eu penso que é realidade é que é o sonho?
               Saiu para a rua sem destino.  Correu para o lugar de seus sonhos, que era a livraria que ficava na esquina de sua casa.  A moça sentada na cadeira, os cabelos pretos  e lisos  em seu espaldar ele debruçou-se  por trás, leu por cima do ombro esguio dela e sentiu o suave perfume das páginas dos livros.  Ângela, era o nome da moça, sorria com o prazer da leitura.  Sempre quando ele chegava, ela fechava o livro marcando a página com o indicador da mão direita e levantava seus olhos  negros  e fixavam nos dele.  
          Logo Pedro percebeu  no poema que ela lia  um de seus textos, ou seja,  todos os seus textos estavam ali  distribuídos e silenciosos nas estantes.

          De modo que, tudo o que ele sonhou escrever  estavam ali, nos livros dos outros.


          Eram eles os ladrões de seus sonhos?




segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

O ditador







                                                                     O ditador


   
          Um homem ia andando pela rua de um país sul americano quando um guarda o parou:

          -Que forma de pensar é essa o guarda gritou?

          -Não sei senhor! Nem forma meu pensamento tem!

          -Vejo que seu pensamento é agudo...

         -Pelo contrário senhor! Dizem que é quadrado, mas eu acho que pensamento não tem forma.

         -Tudo tem forma! Se eu digo tem!

        -Pelo contrário senhor, o cérebro tem forma, todas as coisas físicas têm forma, o pensamento não tem...

        -Quanta teimosia! Está preso senhor!

        -Qual o motivo?

         -Pensamento sem forma!

         -Perdoe senhor! Meu pensamento não está aqui. Está perdido...Está longe...

          -Está preso assim mesmo. Até encontrá-lo. E com forma.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

O texto




"Um bicho que o universo fabrica e vem sonhando desde as entranhas"  Ferreira Gullar-Poema sujo





                                     O texto



          Quando foi pensado o grande texto era para resolver todos e quaisquer percalços que pudesse surgir, resolver os imbróglios de qualquer natureza, sem grandes dificuldades; tinha que ser amplo abranger todos os direitos e deveres. Semelhante à bíblia para o cristão que pela fé segue  seus ensinamentos sem medo. Portanto não deveria deixar furos, nada fora do contexto, nenhuma interpretação dúbia, deveria ser enfim, tão certeiros nos objetivos como uma seta lançada ao alvo. Seria uma regra geral, uma constituição.

           A ideia porquanto, era gastar todo o tempo possível até a total fundamentação; não deixando para trás nenhum ponto a ser alinhavado. Seria necessário redação simples e concisa, sem palavras difíceis para não servirem somente aos aristocratas e juristas que sabem tão bem usufruírem das brechas.

          Pois sabemos como desagradável é, termos leis, mas que são desconhecidas da maioria. Sem falar nas diversas interpretações e pontos de vistas diferentes.

         E sempre a interpretação de um grupo é em prejuízo do outro. É enfim a dualidade do bem e do mal. 

         Quando tiveram a ideia de escrevê-lo, falou-se assim na época: o essencial era o texto reger todo e qualquer cidadão da mesma forma. Não obstante era a grande utopia.

         Com essa meta a humanidade postou-se a mesa.

         Convidaram cérebros de todos os recantos, filósofos, juristas, gente de todas as classes, e num grande mutirão iniciou-se o rascunho das primeiras frases e parágrafos. Como todo início escrevera-se como vinha a mente, mas tais textos o seu caminho é certamente os cortes e muitas vezes o lixo. Mas a prática levará ao caminho das pedras e a perfeição.

         É mister saber que está nos genes das espécies, a evolução. Até o fim, o homem buscará o aperfeiçoamento. Dizem os filósofos. Já os juristas, estes mais comedidos, priorizaram os direitos e deveres.    A gente do povo olhava mais para a subsistência. 

          E o que esperar portanto de leis criadas pela elite? Foros privilegiados naturalmente. A quem deveria servir como luva? 
  
         E assim foi se escrevendo toda a história. O texto foi crescendo assustadoramente. Era muita demanda. Um belo dia, um velho sábio, observou que a história estava mais parecendo a história das mil e uma noite. Não teria fim.  E assim dissera: “que o texto ficasse pronto nessa geração!”.  Pois segundo ele, cada geração vindoura teria seus sonhos e desejos, e ia querer sempre acrescentar algo.

          O sonho era ter o texto irretocável, amplo, com todos os direitos e deveres de cada um.

          Mas até chegarem a um denominador comum, fizeram inúmeras guerras. Por qualquer motivos, triviais até: Em que língua seria editado? Quem assinaria? Quem teria direito de mudar o texto? As minorias ou a maioria? Os ricos ou os pobres? Os brancos ou os negros? Os dominantes ou os dominados? O sul ou o norte? O leste ou o oeste? Os católicos ou protestantes? O capitalista ou o comunista?

         Devido a tais questionamentos, no entanto, as guerras se prolongavam, ódios se multiplicavam, morria-se de fome, e para não compartilharem nada, construiu-se divisas, bandeiras, hinos, templos igrejas... Matou-se em nome de Deus.

         A saber, o texto ainda é um rascunho até hoje, depois de milhões de anos luz.

Ubá, 18 de setembro de 2016

Marinaldo Leite Batista   -----COPYRIGHT

"Quando o mundo estiver unido na busca do conhecimento, e não mais lutando por dinheiro e poder, então nossa sociedade poderá enfim evoluir a um novo nível."